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terça-feira, 12 de maio de 2026

A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta

Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e também para me dar alta. Foi então que a porta do quarto abriu novamente.

Entrou outro psiquiatra. Ele se apresentou — era um médico que ainda não tinha ido me ver antes. Parecia ser alguém com mais autoridade na equipe, talvez um chefe. Mas se apresentou de forma muito respeitosa. Disse que soube do que havia acontecido e que entendia a minha insatisfação e a quebra de confiança.

Depois começou a explicar com calma sobre a clínica psiquiátrica: como era o funcionamento, o tipo de tratamento, a rotina. Ele também reconheceu que os colegas não haviam conduzido a situação da melhor forma. Disse claramente que deveriam ter conversado comigo antes, explicado, orientado e perguntado se eu aceitava.

Falamos também sobre a administração da cetamina. Expliquei que não tinha recebido as orientações necessárias. Ele concordou que o ideal teria sido uma abordagem diferente, inclusive com um termo de consentimento. Comentou que a cetamina costuma ser utilizada em pacientes com quadros muito graves, o que não era exatamente a minha situação.

Foi uma conversa boa. Pela primeira vez senti que alguém estava realmente escutando. Ele demonstrou uma visão mais ampla e muito respeito. Eu estava bem calma naquele momento. Expliquei para ele que compreendia a questão da internação, mas que o problema principal tinha sido a forma como tudo aconteceu. A sensação que tive foi de que a equipe estava tramando algo contra mim.

Também comentei que muitos profissionais mais jovens precisam ser melhor preparados para respeitar o indivíduo, para dialogar e para seguir os protocolos legais e éticos. A impressão que tive foi que muitos estavam motivados pela oportunidade de aplicar uma medicação que não usam com frequência, talvez para observar resultados, aprender mais… Todos concordaram. Só não conversaram comigo.

Depois dessa conversa, ele decidiu me dar alta, como já havia combinado e até gravado no dia anterior. 

O médico clínico passou no quarto, avaliou o braço, prescreveu antibiótico por causa da flebite e, finalmente, recebi alta. Saí do hospital com três flebites, os braços cheios de hematomas, muita indignação e também muita tristeza com a forma como a saúde mental ainda é conduzida.

Isso me impacta ainda mais porque estou estudando para me tornar psicóloga. Saber que, no futuro, terei que conviver e trabalhar ao lado de profissionais que agem dessa forma é algo difícil de aceitar.

Voltei para casa. Queria ficar em silêncio. Minha filha comentou que talvez tivesse sido melhor eu ter ficado internada. Sei que ela não falou por maldade, mas aquilo me deixou muito triste. Porque, se fosse ela no meu lugar, eu iria querer que estivesse perto de mim. Nos próximos textos vou contar como foram os dias em casa.

(continua…)


O Olhar da Psicologia: 

A Escuta Ativa como Reparação

O relato da Elis expõe como a falha ética e a quebra de protocolos podem causar danos psicológicos profundos (iatrogenia). A conversa com o psiquiatra chefe foi um ato de reparação clínica e ética. 

Ao escutar a paciente, validar a sua indignação e reconhecer o erro da equipe, o médico restaurou a dignidade de Elis, permitindo que ela saísse do hospital não como um "corpo respirando", mas como um sujeito de direitos.

Este caso reforça que a Humanização na saúde não é um favor, é uma obrigação legal. 

A aliança terapêutica — a confiança entre paciente e equipe — é o fator de cura mais importante. Sem diálogo e consentimento, o tratamento se torna uma imposição que fere e traumatiza.

Bibliografia de Apoio:
Código de Ética Profissional dos Psicólogos.
Lei nº 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica).

💬 A escuta é o primeiro passo para o cuidado verdadeiro.

Você já passou por uma situação onde sentiu que o seu "consentimento" foi ignorado em um tratamento de saúde? Ou, ao contrário, já teve a experiência de ser realmente ouvido por um profissional, e como isso mudou a sua percepção de cura? Sua história é muito importante. Compartilhe sua experiência nos comentários.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

A Quebra de Confiança: Quando o Hospital Decide por Você

A Quebra de Confiança e a Luta pela Autonomia

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. Conversávamos tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse: — Saiu a vaga.

Eu olhei espantada, tentando entender, afinal, eu não estava esperando vaga nenhuma. Ele continuou: — Sim, saiu a sua vaga para a clínica psiquiátrica. Logo em seguida entrou o restante da equipe, junto com a psicóloga, e disseram: — Amanhã cedinho a ambulância vai levar você.

Minha prima não entendeu nada. Eu pedi que ela saísse, porque precisava conversar com a equipe. Ela achava apenas que eu estava internada por alguma alteração cardíaca, e eu não queria contar a verdade. Assim que ela saiu, eu fiquei muito brava. Comecei a questionar: — Que vaga? Eu não vou para clínica nenhuma. Quem pediu essa vaga?

Ilustração artística de uma paciente feminina (Elis Jurado) sentada e consciente em um leito de UTI. Ela está conversando calmamente com dois médicos da equipe de psiquiatria, que estão em pé ao lado da cama segurando pranchetas. A expressão da paciente é serena, e o detalhe da flebite (inflamação na veia) é visível em seu braço. O ambiente hospitalar é visível, com monitores e suportes de soro, e uma janela ao fundo mostra uma cidade ao anoitecer. A cena transmite o diálogo e a avaliação psiquiátrica descritos por Elis Jurado.
A equipe insistiu que eu precisava ficar 15 dias lá. Aquilo me irritou ainda mais. Eu respondi que tinha uma vida fora dali, precisava trabalhar, estava perdendo aulas, e que eu não aceitava ir. Ninguém havia sequer me perguntado. Comecei a arrancar o aparelho de pressão, dizendo que iria embora, que pediria alta a pedido. A confiança tinha sido totalmente quebrada.

Chamaram minha companheira, que trabalha no mesmo hospital. Ela pareceu receosa de contrariar os médicos e disse que talvez fosse melhor eu ir. Aquilo foi mais uma quebra de confiança para mim. Eu disse que entraria com processo, que eu não poderia ser obrigada. Eu estava fragilizada, mas consciente, orientada e com minhas capacidades cognitivas preservadas. Liguei para uma advogada na frente deles.

É muito difícil presenciar uma equipe inteira tomando decisões sem comunicação. Comecei a gravar tudo. A psicóloga disse que eu poderia responder judicialmente se não apagasse. Eu disse que não tinha problema, mas que não confiava mais neles. Deixei claro: — Eu tenho um transtorno, mas não sou louca. Eu sei muito bem o que posso e o que não posso aceitar.

A partir das 16 horas, decidi que não aceitaria mais alimentação nem nada que me oferecessem. Tinha medo de que colocassem algum medicamento para me sedar e me internar à força. A noite foi muito longa. Eu não consegui dormir, com medo. Finalmente amanheceu. Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… ela estava bem vermelha e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e me dar alta. Foi então que a porta abriu novamente. Entrou outro psiquiatra e…

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia:

Ética e Consentimento

O relato da Elis expõe uma falha crítica na Aliança Terapêutica. Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo e a Lei Paulo Delgado (Reforma Psiquiátrica), a internação deve ser o último recurso e o paciente tem o direito de ser informado e participar das decisões sobre seu tratamento. O anúncio de uma transferência na frente de visitas e a falta de diálogo prévio configuram uma violação da privacidade e da dignidade do sujeito.

A resistência da Elis, baseada em seu conhecimento legal, demonstra que o diagnóstico de um transtorno mental não retira do indivíduo sua cidadania ou sua capacidade de discernimento sobre sua própria vida. O medo da sedação forçada relatado é um reflexo do trauma causado por práticas hospitalares impositivas.

Bibliografia de Apoio:
Lei nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica).
Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

💬 "Eu tenho um transtorno, mas não sou louca."

Você já sentiu que sua voz foi ignorada por causa de um diagnóstico? A luta pela autonomia na saúde mental é um desafio diário. Como você lida quando sente que sua vontade não está sendo respeitada? Deixe seu comentário e vamos fortalecer essa rede de apoio.

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Relato UTI: A Falsa Esperança da Alta e o Surgimento da Vaga

A Chegada ao Hospital: Entre a Recusa e a UTI

Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém. Chegando ao hospital, entrei para a triagem quase imediatamente, porque perceberam que eu realmente não estava bem.

Na triagem, acredito que meus sinais vitais ainda estavam bons, mas perguntaram o que tinha acontecido. Foi então que eu disse que havia tomado uma cartela de lítio de liberação prolongada, aproximadamente três horas antes. Eu ainda estava consciente e orientada, mas com muitos vômitos, diarreia e aumento da diurese.

A enfermeira perguntou quantos comprimidos eu havia tomado. Eu não soube responder. Só lembrava que tinha sido uma cartela inteira. Ela me levou diretamente para a sala de observação. Minha mãe e minha companheira ficaram do lado de fora.

Ilustração de uma paciente em um ambiente hospitalar, sentada em uma maca de triagem, cercada por equipamentos médicos e monitores. A cena transmite a sensação de apatia e dissociação descrita por Elis Jurado no momento da internação.

Lá dentro me perguntaram novamente a quantidade exata, e eu repeti: — Uma cartela. Era tudo o que eu lembrava. E, na verdade, eu não estava disposta a pensar muito sobre aquilo. Eu estava ali… mas ao mesmo tempo parecia que eu não estava. Eu não sentia medo. Não sentia nada. As vozes ainda diziam que eu não deveria dar muitas informações, que era melhor ficar em silêncio.

Rapidamente começaram os procedimentos. Me colocaram em monitores. Fizeram punção venosa. Realizaram eletrocardiograma. Não demorou muito e minha companheira entrou dizendo que iriam me transferir para a UTI. Eu fiquei brava. Porque eu só tinha aceitado passar pelo pronto-socorro. Na minha cabeça aquilo parecia exagero. Eu sabia o que tinha feito… mas naquele momento parecia que eu não tinha dimensão real da gravidade.

Os médicos disseram que estavam em contato com o Centro de Intoxicação Exógena. Eu estava ali como se fosse apenas um corpo respirando. Mas sem sentir nada. Contei tudo isso ao psiquiatra e também à psicóloga. Eles perguntaram se eu ainda tinha ideias de concretizar o autoextermínio. Eu disse que não. Expliquei que a quetiapina ajudaria a parar as vozes.

Também contei a verdade sobre o revólver calibre .22. Expliquei que ele ainda não estava em minhas mãos, porque como eu não tinha conseguido encontrar a munição, eu nem tinha ido retirar a arma. O psiquiatra disse que, provavelmente, eu receberia alta. Fiquei contente. Afinal, já eram seis dias na UTI. Depois a equipe da clínica médica entrou e disse que ainda precisariam repor potássio. Entendi que a alta não viria naquele dia. Não gostei. Mas também não resisti.

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. A gente conversava tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse:

— Saiu a vaga.

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: Intoxicação e o "Corpo Respirando"

Esse relato ilustra o que chamamos de distanciamento afetivo em crises graves. Mesmo diante de procedimentos invasivos e da transferência para uma UTI, a paciente relata uma ausência de medo ou dimensão da gravidade. Clinicamente, a intoxicação por lítio pode causar confusão mental e lentificação, mas aqui notamos também uma defesa psicológica: a mente se "desliga" para suportar a dor emocional.

A cooperação com a equipe, embora relutante, e a honestidade sobre os planos anteriores (como a arma e a medicação) são sinais de que o vínculo terapêutico começou a ser reestabelecido, permitindo que a equipe médica e o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) pudessem agir com segurança.

Bibliografia de Apoio:
KAPLAN, H. I. Compêndio de Psiquiatria. Artmed.
Conselho Federal de Psicologia. Atendimento em Crise e Urgência.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

💬 A jornada da recuperação não é linear.

Você já se sentiu como um "corpo respirando", apenas observando a vida acontecer sem conseguir sentir nada? Às vezes, o primeiro passo para a cura é aceitar que precisamos de ajuda, mesmo quando não entendemos a gravidade da situação. Deixe seu comentário abaixo: sua história também merece ser ouvida.

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Ápice da Crise: O Plano, as Vozes e o Medo de Traumatizar quem Amo

A Armadilha do Silêncio e o Peso da Decisão

Voltei para casa. Liguei o computador. Comecei a fazer algumas coisas do trabalho. Mas as vozes não paravam. Elas diziam: — Termine logo o trabalho e acabe de vez com esse sofrimento. — Nada vai adiantar. — Você sempre vai ficar um tempo bem… e depois vai ficar mal de novo. — Você é uma péssima mãe. — Uma péssima esposa.

Diziam que não adiantava continuar vivendo daquele jeito. Que eu só estava sofrendo e atrapalhando a vida das outras pessoas. Que ninguém me entendia… e que nunca iriam entender, porque ninguém sentia aquilo que eu sentia. Então elas insistiam: — Vai logo. — Escreve um bilhete. — Acaba logo com isso.

Ilustração de uma mulher em frente ao computador em um ambiente escuro, com sombras fragmentadas ao redor que representam pensamentos intrusivos e o isolamento emocional. A cena transmite o conflito interno e a gravidade do momento descrito no relato de Elis Jurado sobre a crise de saúde mental

Disseram que havia uma cartela de lítio. Que bastava eu tomar. Que depois eu poderia ficar quieta. Que à noite, quando o lítio já estivesse acumulado no sangue, eu estaria sozinha em casa. Que eu passaria mal pela última vez. Que iria convulsionar… e morrer. Elas continuavam: — Você nem conseguiu encontrar a munição. — Aproveita. É agora.

Diziam que todo mundo ficaria melhor sem mim. Que iam chorar por alguns dias… mas depois tudo voltaria ao normal. Diziam que minha filha viveria muito bem. Que eu nunca mais cobraria nada dela. Que minha companheira poderia fazer mais coisas que gosta, porque não teria mais que lidar comigo. Que a dificuldade financeira acabaria. Que minha irmã nunca mais precisaria se preocupar comigo.

E então diziam: Olha as pessoas. Eu via. Eu via todos sorrindo. Como se estivessem esperando por aquilo. Como se aquilo fosse o melhor desfecho possível. E aquilo parecia real. Muito real. Não parecia mentira. Parecia verdade absoluta. Foi então que abri a gaveta. Sem pensar em qualquer outra consequência. Com a certeza de que, até 22 horas, tudo estaria terminado. Tirei todos os comprimidos da cartela. E tomei.

As vozes me elogiaram. Disseram que eu tinha conseguido. E naquele momento eu senti algo estranho: Eu me senti bem. Até feliz. Eu acreditava que estava dando às pessoas descanso. Que estava oferecendo a todos uma vida melhor. Voltei para o computador. Terminei as coisas do trabalho.

Em alguns momentos as vozes mandavam eu pegar o carro e sair dirigindo, mas antes de meia hora comecei a passar muito mal. Veio uma dor forte no estômago. Depois náusea. E vômitos. Minha companheira percebeu. Viu que eu estava vomitando e que eu não tinha ido trabalhar. Eu apenas disse que estava passando mal. Como ela precisava sair, chamou minha mãe para ficar comigo sem que eu soubesse. Eu não contei nada.

Logo minha mãe chegou. Ela queria que eu fosse ao hospital, porque eu estava vomitando muito. Eu não aceitei. Mas comecei a piorar. Muito. E quando entendi que minha mãe ficaria ali comigo, minha mente entrou em paranoia. As vozes voltaram com força: — Você vai convulsionar e morrer na frente da sua mãe. — Manda ela ir embora. — Você tem que estar sozinha.

Diziam que aquilo ia traumatizá-la. Que ela acabou de sair de uma cirurgia cardíaca. Você é má. — Você é um monstro. — Nem para morrer você consegue fazer direito. — Sua mãe não pode te ver morrer. 

Eu chorei muito. Acabei desabafando com minha mãe alguns conflitos, mas, na verdade, eu só queria proteger minha mãe. Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém.

Chegando ao hospital… continua no próximo capítulo.


O Olhar da Psicologia: O Alívio Perigoso e a Distorção de Afeto

O relato da Elis descreve um fenômeno clínico alarmante: o alívio ou felicidade após a decisão do autoextermínio. Para a mente em sofrimento extremo, a decisão final aparece como uma "solução" para o conflito, o que gera uma falsa sensação de paz. Esse é um dos sinais de maior risco, pois a pessoa para de lutar contra a ideia e passa a executá-la com serenidade.

As vozes que dizem que "todos ficariam melhor sem ela" são expressões da auto invalidação extrema, comum em episódios depressivos do Transtorno Bipolar. A paranoia final sobre traumatizar a mãe revela que, mesmo no ápice da crise, o vínculo afetivo permanece, sendo muitas vezes o último fio que conecta o sujeito à busca por ajuda hospitalar.

Bibliografia de Apoio:
SHNEIDMAN, E. S. The Suicidal Mind. Oxford University Press.
BERTOLOTE, J. M. O Suicídio e sua Prevenção. Ed. UNESP.


💬 Este é um relato de muita dor... 

Mas também de sobrevivência. Você já sentiu que sua mente tentou te convencer de algo que não era real? Se sentir vontade, compartilhe como você lida com seus dias mais difíceis aqui nos comentários. Vamos nos apoiar 

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ideação Suicida e Bipolaridade: O perigo do silêncio e o medo do amanhã.

O Medo do "Depois" e o Silêncio das Vozes

As vozes tinham desaparecido. Eu já não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava apenas aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria. Perguntaram como eu estava.

Eu respondi que estava bem — ou pelo menos melhor — mas que ainda sentia meus pensamentos um pouco desorganizados. Disse também que já não sentia aquela vontade constante de chorar e que acreditava que em breve receberia alta médica. O psiquiatra permaneceu um tempo comigo. Ele começou a fazer perguntas sobre coisas mais antigas. Perguntou o que havia me levado a usar o lítio em excesso, já que fazia menos de dois meses da minha última consulta psiquiátrica, e naquela consulta eu havia dito que estava bem.

Ilustração artística em tons de azul e roxo de uma paciente feminina sentada e consciente em um leito de UTI. Ela está conversando calmamente com dois médicos da equipe de psiquiatria, que estão em pé ao lado da cama segurando pranchetas. A expressão da paciente é serena, refletindo a melhora dos sintomas agudos. O ambiente hospitalar é visível, com monitores e suportes de soro, e uma janela ao fundo mostra uma cidade ao anoitecer.

Eu expliquei...

Naquela consulta eu estava realmente bem.

Disse a ele que convivo com o diagnóstico de transtorno bipolar há muitos anos, e que, com o tempo, aprendi a perceber quando algo dentro de mim começa a mudar, quando sinto que as coisas podem não caminhar bem.

Mas, naquela ocasião, eu estava bem de verdade.

Esse “estar bem” sempre me traz alegria, mas também me deixa em alerta. Porque, muitas vezes, depois de um período de estabilidade, acaba vindo a depressão.

Mesmo assim, naquele momento estava tudo tranquilo. Eu realmente me sentia bem. A única coisa que me incomodava era uma dificuldade de concentração, que estava me prejudicando na faculdade.

E foi exatamente isso que eu disse naquela consulta:

Eu estou bem… mas tenho medo do depois, pois já faz um tempinho que estou bem.

E o depois veio. Veio com crises intensas de choro, com ansiedade, com falta de esperança, com medo. Ao mesmo tempo surgiram vários gatilhos externos. Situações que não dependiam de mim, que eu não conseguia controlar nem evitar. Tudo começou a se acumular. E foi piorando. Como existiam motivos concretos para eu estar triste, eu não me preocupei tanto no começo. Pensei que fosse uma reação aos acontecimentos. Algo compreensível.

Pensei em ir ao pronto-socorro várias vezes. Mas sempre dizia para mim mesma que ia passar. Que era só uma fase difícil. Que os gatilhos estavam muito evidentes. Só que, aos poucos, minha mente começou a mudar de um jeito assustador. Quase todos os dias eu comecei a me preparar para morrer. Foi nesse momento que as vozes apareceram.

Elas diziam coisas como:

  • Que eu nunca sairia daquela situação.
  • Que felicidade não existia para mim.
  • Que eu era um peso na vida das pessoas.
  • Que ninguém gostava de mim de verdade.

E o mais assustador… é que parecia real. Tão real que, em algum momento, eu concordei com elas. Com medo de tentar algo e dar errado, comecei a pesquisar formas de garantir que tudo acontecesse “perfeitamente”. Foi então que percebi que tinha uma arma poderosa nas mãos: o lítio. Mas também deixei essa ideia de lado por um tempo. Eu tinha medo de que não funcionasse e eu acabasse sobrevivendo com sequelas.

Então comecei a procurar outra forma. Fui atrás de um revólver. Assim eu imaginava que estaria tudo pronto quando chegasse a hora certa. Consegui, com dificuldade, encontrar um calibre .22. Cheguei até a tentar me matricular em um curso para porte de arma, tentando seguir um caminho “legal”, mas não consegui. Mesmo assim falei para o rapaz reservar o calibre .22 para mim. Só havia um problema: ele não tinha munição.

É curioso como a mente pode entrar num lugar tão estranho… eu tinha medo de alguém pegar aquilo e eu acabar presa. O rapaz disse que não conseguiria a munição. Mesmo assim continuei procurando. Sem muita pressa. Como se aquilo fosse apenas uma possibilidade guardada para o futuro. Até que chegou o dia 08/02/2026. Nesse dia aconteceram problemas em casa. Outro gatilho foi disparado.

Consegui me manter relativamente bem naquele dia, mas no dia seguinte eu acordei com o rosto inchado de tanto chorar. As crises de choro voltaram muito fortes. Mesmo assim saí para trabalhar. Levei minha filha até o ponto e logo eu comecei a chorar... 

E foi ali que as vozes voltaram com força. Elas mandaram eu voltar para casa. Disseram para eu avisar no trabalho que entraria mais tarde. Eu obedeci. Voltei para casa. Liguei o computador. Comecei a fazer algumas coisas do trabalho...

Mas…

Continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: A Ideação Estruturada

O relato da Elis descreve com precisão o fenômeno da ideação suicida estruturada. Diferente de um impulso momentâneo, aqui a mente busca meios, métodos e justificativas lógicas (gatilhos externos) para validar o sofrimento. As "vozes" mencionadas podem ser interpretadas clinicamente como pensamentos intrusivos de caráter depressivo grave, que distorcem a percepção da realidade e do valor próprio.

A ambivalência — o desejo de morrer em conflito com o medo de sobreviver com sequelas ou de ter problemas legais — é uma característica comum. Reconhecer esses sinais precocemente, como a Elis tentou fazer na consulta anterior, é o ponto crucial para a intervenção em crises de saúde mental.

Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed.
OMS. Prevenção do Suicídio: Um Manual para Conselheiros.


💬 E você? Já sentiu que o "estar bem" de hoje escondia um medo profundo do que viria a seguir? Já precisou de coragem para nomear e enfrentar seus próprios gatilhos? Compartilhe sua experiência nos comentários. Sua história pode ser a luz que alguém precisa encontrar. 

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. CVV – 188 (24h, gratuito).

segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando a Realidade Se Quebrou: Delírios e Dissociação na UTI

Quando a Realidade Se Quebrou

Sim… tudo desapareceu.

Eu já estava deitada, com o papel e a caneta firmes nas mãos. A medicação ainda não tinha começado, e na minha mente, nada aconteceria além de um sono tranquilo mais tarde. Eu esperava o aviso dos médicos, o toque das enfermeiras, o início de tudo... Estava bem, confiante. Os eletrodos foram conectados e eu acreditava que teria alguém por perto enquanto eu começava a escrever meus primeiros pensamentos. Minha única expectativa era o incômodo da punção na veia para, finalmente, iniciar o processo.

Mas a realidade não esperou. E então… de repente… Eu já não estava mais ali.

Era como se eu tivesse sido arrancada da realidade. Eu tentava voltar. Tentava recuperar os sentidos. Mas quanto mais eu tentava, mais eu parecia ser puxada para longe. Era uma velocidade absurda. Como aqueles brinquedos de parque de diversão que giram para trás, cada vez mais rápido. Eu estava sendo levada. Longe. Para uma realidade assustadora.

Eu via vultos. Muitos vultos. Em alguns momentos parecia que eu estava no espaço. Tudo era escuro, cheio de estrelas, luzes passando em uma velocidade absurda. Eu tentava me mexer… mas não conseguia. Eu tentava entender o que estava acontecendo comigo… mas nada fazia sentido.

Havia muitas luzes.
Muitos sons.
Objetos barulhentos passando por mim. E vozes. Eu ouvia vozes. Às vezes parecia que eu estava voltando para o quarto. Eu me via ali. Mas tudo parecia um desenho animado. As enfermeiras estavam próximas de mim. Eu via elas. Mas não sabia o que estavam fazendo. Eu pedia ajuda. Mas ninguém fazia nada. Elas pareciam personagens de desenho também. E tinham uma risada horrível. Uma risada assustadora. Eu sentia medo. Angústia. Desespero. Eu queria sair daquilo. Mas elas riam.

Eu tentava voltar para a realidade olhando fixamente para alguma coisa do quarto. Às vezes funcionava por alguns segundos. Eu via o biombo. Nele estava escrito UTI 2. Então eu pensava: “Está tudo certo… eu estou no quarto… estou na UTI.” Mas de repente… O biombo virava um monstro. E tudo começava outra vez.

A Fábrica Infinita

Eu era puxada novamente. Voando pelo espaço. Com medo. Com dúvidas. Sem entender nada. Quando parecia que aquilo estava acabando… Tudo se repetia.

Era como se eu estivesse dentro de uma fábrica. Trabalhando em uma linha de produção. Uma produção infinita. Eu montava cabeças de bonecos. Colocava olhos. Mas nunca acabava. As cabeças vinham cada vez mais rápido. Eu queria que desse a hora de ir embora. Mas elas continuavam chegando. Mais rápido. Mais rápido. O vento batia forte. As cabeças vinham voando na minha direção.

Luzes acendiam por todos os lados. Objetos apareciam com formas estranhas. Às vezes pareciam desenhos animados. Às vezes pareciam objetos de massinha em 3D. Nada fazia sentido. Em alguns momentos eu pensava: “Estou delirando.” Mas logo lembrava: A medicação ainda nem tinha começado. A prancheta e a caneta que estavam comigo… Pareciam ter voado para o espaço.

Eu acreditava em realidades estranhas e mentirosas. E ao mesmo tempo sabia que aquilo era um delírio. Eu queria voltar. Voltar para o quarto. Escrever no papel. Esperar a enfermeira puncionar a veia. Eu ainda estava preocupada com a medicação que deveria começar.

E com algo muito simples: Eu estava com fome. Eu queria que aplicassem logo o remédio para que eu pudesse comer depois. Parecia uma lógica normal… dentro de um mundo completamente sem lógica.

Em um momento senti vontade de ir ao banheiro. Pensei que estava levantando. Mas não estava. Eu fiz xixi. E senti como se a urina girasse em cubos, dando voltas. Pensei que estava usando uma fralda. Mas não era. Parecia um recipiente que armazenava urina. Eu não entendia exatamente. Comecei a ficar irritada. Tentava me mexer. Mas não conseguia.

Aos poucos comecei a passar mais tempo na realidade. Mas tudo ainda girava. Eu me sentia péssima. Com medo. Com desespero. Era como se eu estivesse presa dentro do meu corpo… e o meu cérebro estivesse fora da minha cabeça, voando.... Eu via algumas pessoas. Mas não conseguia pedir ajuda. A vóz não saia, as palavras não saíam. Eu via as enfermeiras me olhando, mas não faziam nada, e até riam... Eu sentia muita náusea. Eu não entendia ainda exatamente o que estava acontecendo.

Foi então que…

Continua no próximo capítulo…


O que a ciência diz sobre a Dissociação e o Delírio

A experiência de "não estar mais ali" ou ser "arrancada da realidade" é descrita na psicopatologia como um estado grave de dissociação. Nesses momentos, a integração da consciência, memória e percepção do ambiente é rompida. No contexto hospitalar e do transtorno bipolar, isso pode ser intensificado pelo estresse extremo do ambiente de UTI, resultando em episódios de Delirium.

Diferente do delírio da psicose, o Delirium (estado confusional agudo) causa flutuações na consciência e distorções sensoriais (como ver as enfermeiras como desenhos animados ou sentir o xixi em cubos). O cérebro, sob forte estresse ou desequilíbrio neuroquímico, tenta processar informações mas acaba criando uma realidade fragmentada e surrealista.

Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Artmed, 2014.

Um momento de partilha

Você já sentiu como se a sua mente estivesse desconectada do seu corpo? Às vezes, colocar essas sensações para fora é o primeiro passo para retomar o controle. Deixe seu comentário se você já viveu algo que a lógica não conseguia explicar.

Texto por: Elis Jurado

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Bipolaridade e Convivência Familiar: O Peso de Fingir Estar Bem em Casa

Quando Até em Casa Eu Não Posso Descansar

Dentro da minha casa — que teoricamente deveria ser o lugar mais seguro do mundo — existem conflitos, cobranças e uma falta de compreensão que dói mais do que muita coisa lá fora.

Eu não sou a melhor pessoa do mundo. Não me coloco num pedestal. Não me gabo de nada. Sou apenas alguém consciente. Consciente de que viver com uma pessoa bipolar não é fácil. Consciente de que conviver com oscilações de humor, silêncio e recolhimento pode ser cansativo.

Mas existe algo que preciso dizer com honestidade: eu não sou alguém que explode, que grita, que agride, que desconta. Quando fico mal, eu me recolho. Fico quieta. Me isolo de verdade. Não incomodo ninguém.

Desde o início do meu relacionamento, eu ainda não tinha diagnóstico, mas já carregava uma vida marcada por tristeza, depressões profundas, altos e baixos, e a necessidade constante de acompanhamento psicológico. Eu contei isso. Contei com todas as letras.

Disse que havia épocas em que eu ficava muito mal. Disse que nem eu mesma me suportava nesses períodos. Disse que era doloroso, confuso, pesado. E perguntei, com medo e honestidade, se ela estava disposta a viver isso comigo.

Ela disse que sim. Disse que entendia. Disse que estaria comigo. E esteve. Na primeira grande crise, esteve.

Mas as crises não são únicas. Elas vão… e depois voltam. O humor afunda sem que nada, absolutamente nada, tenha acontecido. Com o passar dos anos, o apoio foi se transformando em cobrança:

“Você está assim por causa disso.”
“Você não deveria sofrer por aquilo.”
“Você está brava.”
“Você não pode se isolar.”
“Isso não é normal.”

E aí vem a parte mais cruel. A fase já é ruim. A doença já é pesada. E, além disso, eu não posso ser eu. Já nem sei mais quem sou. Porque há muitos anos venho fingindo. Engolindo. Aceitando. Me moldando. Tudo para não magoar ninguém. Para não preocupar. Para não ser julgada. Para evitar cobranças que machucam mais do que ajudam.

Na fase melancólica, o que eu mais preciso é ficar sozinha comigo mesma. Não por rejeição. Mas por necessidade. Preciso desse silêncio para descansar. Para ser quem sou sem performance. Para conversar comigo. Para sobreviver.

Mas isso quase nunca acontece. Porque sempre preciso disfarçar. Sempre preciso parecer melhor do que estou. E cansa. Cansa de um jeito profundo.


O que a ciência diz sobre o Recolhimento e a Performance

A psicologia e a psiquiatria reconhecem que, em transtornos do humor, o recolhimento temporário pode ser uma estratégia legítima de autorregulação emocional. Estudos mostram que forçar interação, explicações constantes ou exigir estabilidade emocional durante fases depressivas pode aumentar o sofrimento, a culpa e a exaustão psíquica.

A necessidade de "performance" ou fingir estabilidade emocional cria uma sobrecarga significativa. Respeitar o tempo interno da pessoa ajuda a evitar agravamentos.

Bibliografia de Apoio:
LINEHAN, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT. Artmed, 2018.
MIKOWITZ, D. J. O Livro de Autoajuda para o Transtorno Bipolar. Artmed, 2011.

💬 Esse não é um desabafo isolado. É parte de uma história que ainda precisa ser contada.

Você já se sentiu assim dentro da própria casa? Já precisou de silêncio, mas foi cobrado por explicações? Se esse texto tocou em algo aí dentro, escreve aqui. Conta como é para você. Ou compartilha com alguém que precisa entender que, às vezes, amar também é saber respeitar o recolhimento do outro.

Ninguém deveria precisar fingir para caber onde mora.

Escrevo não para acusar, mas para existir. Porque existir, às vezes, já é difícil o suficiente.
Elis Jurado

Se você estiver em sofrimento intenso, procure ajuda. CVV – 188 (24h, gratuito).

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Por dentro, ninguém vê: O peso do esforço invisível na Saúde Mental

Por dentro, ninguém vê: O peso do esforço invisível

Quem olha de fora talvez não perceba. A casa parece normal. As tarefas seguem acontecendo. O sorriso aparece quando precisa. Mas aqui dentro, dentro de mim, existe um esforço diário que ninguém enxerga.

Eu acordo tentando me ajudar. Respiro fundo antes de levantar. Organizo pequenas rotinas para não me perder. Faço listas, planos, promessas silenciosas de que hoje vai ser diferente.

Em casa, sigo funcionando. Arrumo o que dá. Resolvo o que é urgente. Seguro conflitos antes que explodam. Engulo palavras para evitar guerras. Tem dias em que o cansaço não é do corpo — é da alma. É cansativo sustentar tudo. É cansativo ser o eixo. É cansativo precisar estar bem quando tudo em mim pede pausa.

O sofrimento não grita. Ele se esconde. Ele se adapta. Ele aprende a sorrir. Quando alguém pergunta “tá tudo bem?”, eu respondo no automático: “Tá sim.” Não porque esteja. Mas porque explicar dói mais do que silenciar.

As pessoas não entendem. E, na maioria das vezes, nem querem entender. Elas veem o que aparece: o sorriso educado, a conversa breve, o “deixa comigo”. Ninguém vê o esforço para não chorar no banheiro. Ninguém vê o medo de desmoronar se parar por cinco minutos. Ninguém vê o quanto eu me escondo para não preocupar, não incomodar, não ser um peso.

Eu sigo tentando me ajudar do jeito que consigo. Às vezes escrevendo. Às vezes ficando em silêncio. Às vezes apenas sobrevivendo ao dia. Não é fraqueza. É exaustão. E mesmo cansada, sigo. Porque desistir não é uma opção que eu me permita. Mas confesso: há dias em que continuar dói.


💬 Se você chegou até aqui

Talvez você também viva assim. Funcionando por fora, sangrando por dentro. Se escondendo atrás de um sorriso que não representa o que sente. Se esse texto te atravessou, fica. Escreve nos comentários. Conta como é aí dentro de você. Aqui, ninguém precisa fingir que está tudo bem.


Você não precisa carregar tudo sozinha.
Se o cansaço emocional estiver pesado demais e você precisar conversar, o CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Quando o Corpo Cansa: Estresse Crônico e os Sinais Físicos na Saúde Mental

Quando o corpo cansa antes da alma avisar

Estou cansada. Um cansaço que não se resolve dormindo. Desde o início desta semana, o esgotamento deixou de ser apenas mental e virou físico também. Meu corpo inteiro dói. As pernas pesam. A cervical pulsa. Os braços e as mãos doem. Os dedos rangem ao fechar as mãos, como se tudo estivesse rígido por dentro.

Não tenho ânimo, não consigo me concentrar. Começo várias coisas e não termino nenhuma. Leio, mas nada fixa. Esqueço com facilidade. O barulho me irrita profundamente. Quero ficar sozinha. Até dirigir, algo que sempre fiz, agora me traz insegurança. Tenho medo. Não consigo relaxar. Meus desenhos digitais perderam o sentido. Não é falta de vontade — é falta de força.

O mais confuso é lembrar que, pouco tempo atrás, eu estava bem. Minha mãe passou por uma cirurgia e eu achei que não daria conta. Hospital, trabalho, faculdade, provas, preocupação constante. Mesmo assim, eu segui. Produzi bem. Funcionei. Driblei tudo. E agora… de repente… caí.


O que a ciência explica sobre isso

A ciência mostra que, em períodos prolongados de estresse, o corpo entra em modo de sobrevivência. O cérebro ativa constantemente o sistema de alerta, liberando hormônios como o cortisol e a adrenalina. É isso que nos faz “dar conta” quando parece impossível.

O problema é que esse estado não pode ser mantido por muito tempo. Quando a fase crítica passa, o corpo cobra. E cobra tudo de uma vez. Estudos em neurociência e psicossomática mostram que o estresse crônico pode causar fadiga intensa, dores musculares e dificuldade de concentração. Ou seja: o corpo adoece tentando proteger a mente.

Neurobiologia da Fadiga e Resiliência

O estado descrito é muitas vezes chamado de "crash pós-estresse". No Transtorno Bipolar, o sistema nervoso é mais sensível a mudanças de ritmo. Quando passamos por um período de alta demanda (como o cuidado com a mãe e os estudos), o corpo utiliza todas as suas reservas. A bibliografia destaca que a manutenção da rotina e o uso adequado de estabilizadores de humor, como o Lítio, são essenciais para proteger o cérebro desses danos a longo prazo.

Bibliografia de Apoio:
BALLONE, G. J. Da Emoção à Lesão: Um Guia de Medicina Psicossomática. Manole, 2007.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.

Estou usando bupropiona e lítio. E junto com os sintomas, vem o medo de piorar, porque desde os 15 anos vivo isso. Vem a culpa por não conseguir reagir. Vem a sensação de estar falhando comigo mesma. Mas escrever aqui é meu jeito de não me abandonar. De registrar o que sinto. De transformar dor em palavra.

Eu estou cansada — e isso é real.


Você não está sozinha nesta caminhada.
Se o peso estiver grande demais, procure ajuda profissional. O CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso 24h por dia.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Transtorno Bipolar e Identidade: O Peso Invisível de Conviver com Extremos

Quando o mundo pesa dentro de mim — e eu continuo

Tem dias em que o peso do mundo parece morar todo aqui dentro. O corpo continua andando, respondendo, sobrevivendo… mas por dentro, o silêncio grita.

Já me perdi na minha própria mente. Acreditei que estava sozinha num deserto emocional, onde ninguém entende, ninguém alcança, ninguém escuta. Mas, mesmo assim, eu respirei. E continuar respirando, quando tudo dói, também é um ato de coragem.

Conviver com o transtorno bipolar intensifica tudo. As emoções não passam — elas atravessam. Os altos são intensos, os baixos são profundos, e o cansaço de existir entre extremos é algo que pouca gente vê. Há momentos em que preciso parar. Segurar a própria mão. Aceitar ajuda. E isso não me diminui. Pelo contrário: pedir ajuda é uma das formas mais honestas de força que conheço.


O que a ciência nos ajuda a entender

Estudos em neurociência mostram que o transtorno bipolar não é fraqueza emocional, mas uma condição marcada por alterações nos circuitos cerebrais que regulam o humor. No entanto, a ciência também estuda a Neurobiologia da Resiliência: a capacidade do cérebro de se adaptar e encontrar equilíbrio mesmo após grandes crises.

A Psicoeducação é uma ferramenta científica essencial. Entender o funcionamento da própria mente ajuda a reduzir o estigma e o sentimento de culpa. Reconhecer que "sobreviver ao dia" é uma vitória biológica e psicológica real ajuda na manutenção da estabilidade a longo prazo.

Bibliografia de Apoio:
MIKOWITZ, D. J. O Livro de Autoajuda para o Transtorno Bipolar. Artmed, 2011.
REEDER, F. Resiliência e Saúde Mental: Uma Abordagem Clínica. McGraw-Hill, 2015.

💭 Verdade que ninguém diz:
Sobreviver, em alguns dias, é a maior conquista possível.

🤍 Se esse texto te encontrou…

Talvez você também esteja carregando um mundo inteiro por dentro. Você não precisa fazer isso sozinho. Compartilhe seu sentimento nos comentários.
Apoio Emocional:
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Culpa e o Transtorno Bipolar: O Desafio de se Perdoar

Não sou perfeita — sou humana

Não sou perfeita. E talvez essa seja a frase mais difícil de aceitar quando se vive tentando compensar tudo o que já quebrou. Sou feita de tropeços repetidos, de quedas profundas e de tentativas tardias de consertar o que doeu em alguém. Já estive tão no fundo que confundi sobrevivência com fracasso. Já errei sabendo que errava — e isso pesa mais do que qualquer julgamento externo.

Não sou perfeita porque sou humana. E humanos amam torto, sentem demais, explodem, silenciam, machucam sem intenção e carregam culpas que não dormem. Há erros que não gritam — apenas permanecem. Pesam no peito como um mundo inteiro. Principalmente quando o erro tem nome, rosto… e lágrimas.

Ver alguém chorar por algo que saiu de mim é uma dor que não se explica. É uma culpa que rasga por dentro, que desorganiza a alma e faz a gente desejar voltar no tempo — mesmo sabendo que não dá. A ciência explica que a mente adoecida distorce reações, impulsos e limites. Mas nenhuma explicação técnica diminui o peso de ferir quem se ama. Entender não apaga. Apenas contextualiza.

O que quase ninguém fala é que errar não destrói tanto quanto não se perdoar. Porque errar é humano. Mas viver se punindo eternamente é desumano. Não sou perfeita. Tenho defeitos visíveis, falhas recorrentes e vitórias raras. Já caminhei abaixo do abismo e, ainda assim, continuo aqui — tentando aprender a existir sem me odiar.

Este texto não é defesa. Não é pedido de absolvição. É um retrato cru de quem sente demais, erra demais e ainda assim ama com o que tem. Se você já machucou alguém e isso ainda te corrói, saiba: a culpa mostra que existe consciência. E a consciência é o primeiro passo para a mudança.


O olhar da Psicologia sobre a Culpa e a Autocompaixão

Na psicologia, compreendemos que a culpa pode ser funcional quando nos move para a reparação, mas torna-se patológica quando se transforma em auto-ódio. No contexto do transtorno bipolar, a labilidade emocional pode gerar comportamentos impulsivos que, mais tarde, resultam em profundo remorso.

A Terapia Focada na Compaixão propõe que o autoperdão não é ignorar o erro, mas sim desenvolver uma mente capaz de acolher a própria fragilidade para evoluir. A ciência da Autocompaixão comprova que pessoas que se perdoam têm mais facilidade em não repetir comportamentos nocivos do que aquelas que vivem sob constante autopunição.

Bibliografia Consultada:
NEFF, Kristin. Autocompaixão: Pare de se castigar e deixe a insegurança para trás. Tapa, 2011.
GILBERT, Paul. Terapia Focada na Compaixão. Artmed, 2015.
LEAHY, Robert. A Cura do Remorso. Artmed, 2022.

Reflexão final:
Nem todo erro nasce da falta de amor. Alguns nascem do excesso de dor.

🤍 Se isso te tocou…

Talvez você também esteja tentando se perdoar. Talvez hoje seja o dia de começar. Deixe um comentário ou compartilhe sua história. Ser lido também é uma forma de acolhimento.
Cuidado e Acolhimento:
Se o peso da culpa estiver insuportável, não enfrente isso sozinho. O CVV oferece apoio gratuito 24 horas por dia.

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

“Louca”: o que ninguém vê quando se fala em transtorno bipolar

“Louca”: o que ninguém vê quando se fala em transtorno bipolar

Louca. É assim que muitas pessoas me definem — quase sempre em silêncio, pelas costas. O que elas não sabem é o peso que eu carrego todos os dias. Conviver com o transtorno bipolar não é “mudar de humor”. Não é exagero. Não é falta de controle. É viver em uma montanha-russa emocional que não desliga nunca.

Quando estou no alto, parece que tudo finalmente anda. A mente acelera, a energia transborda. Mas junto vêm a irritação, a impulsividade e o arrependimento. Quando estou embaixo, a queda é profunda. O corpo pesa, a cama prende e a vida perde a cor. O mais difícil é quando tudo acontece junto: euforia e exaustão.

Passei muito tempo sem diagnóstico. E isso me deixou uma dúvida constante: quem sou eu — e o que é o transtorno? Sou essa pessoa sem energia? Ou essa mulher intensa e proativa? Hoje sigo reaprendendo quem eu sou, sem rótulos fáceis e sem romantizar a dor.


📚 O que a ciência diz sobre o Estigma e a Neurobiologia

A ciência moderna, através da Psiquiatria Biológica, comprova que o transtorno bipolar é uma condição neurobiológica complexa. Não se trata de "fraqueza de vontade", mas de alterações na regulação de neurotransmissores e circuitos cerebrais que controlam o tônus emocional e a energia.

O uso do termo "loucura" apenas reforça o estigma estrutural, dificultando a busca por ajuda. Estudos em Psicoeducação demonstram que, quando o paciente entende os mecanismos biológicos da sua condição, a adesão ao tratamento melhora e o sofrimento relacionado à perda de identidade diminui drasticamente.

Bibliografia Consultada:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.
GOODWIN, F. K.; JAMISON, K. R. Doença Maníaco-Depressiva: Transtorno Bipolar e Depressão Recorrente. Artmed, 2010.

Nota importante:
As emoções descritas aqui não são apenas minhas. São de muitas outras pessoas também.

💬 Vamos falar sobre isso?

Se você vive com bipolaridade — ou convive com alguém que vive — tente olhar com mais empatia. Deixe um comentário, ser ouvido já é parte do tratamento.
Apoio Emocional:
No Brasil, o CVV oferece apoio gratuito 24h.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Bipolaridade e oscilação de humor: quando o dia amanhece nublado aqui dentro

Hoje está nublado aqui dentro.

Hoje o dia amanheceu nublado. Não só lá fora. Aqui dentro também. Acordei sem vontade de sair. Sem vontade de explicar. Sem vontade de ser forte. Eu nem tinha pensado nisso, mas acordei com vontade de fugir. Não de alguém específico. Mas dessa sensação constante de ter que dar conta de tudo. Desses pensamentos que querem explodir a minha cabeça.

Tem dias em que eu pareço de aço. Funciono. Resolvo. Seguro tudo. Mas tem dias — como hoje — em que só quero sentir o chão. Pisar firme. Sentar no chão se for preciso. Respirar sem performance. Eu queria que minha vida fosse diferente. Não perfeita. Só menos cansativa, sem esses pensamentos, esses sentimentos, sem ter que viver fingindo um sorriso que não existe...

Carrego feridas que não cicatrizam fácil. Feridas invisíveis. Feridas que doem. Daquelas que ninguém vê, mas que doem sempre, acho que todos os dias... Tem dias, meses que até estou bem, outros estou mal. E em outros até que mais ou menos. Hoje está nublado aqui dentro. Às vezes tudo claro, outras tudo escuro. E quem vive isso sabe: não é drama, é oscilação.

É a bipolaridade mostrando que o humor não pede licença. Ele muda. Ele vira. Ele cai. E não precisa ter motivos, ele muda de tempo em tempo... E sim, amanhã pode passar. Na maioria das vezes até que passa mesmo. Mas hoje ainda está aqui. E amanhã pode estar também, e por muitos dias mais.

Hoje eu preciso pensar em mim. Ficar comigo. Esperar meu tempo. Sem procurar colo. Sem pedir consolo. Preciso ficar quieta, em silêncio, sozinha, sem pensar no que vão pensar, sem segurar o choro, sem pedir licença para chorar. Hoje me falta o ar. Eu sei que é passageiro. Mas enquanto passa, dói. Hoje eu só quero chorar. E está tudo bem.

Não importa quem ligue. Hoje eu não vou atender. Porque tem dias em que atender o mundo custa mais do que eu tenho. Amanhã… talvez passe. Eu confio nisso. Mas hoje, deixa eu existir assim.


📚 O olhar da Psicologia Clínica

Na psicologia, compreendemos que as oscilações emocionais, especialmente no Transtorno Bipolar, podem ocorrer de forma independente de eventos externos claros. A bibliografia sobre Psicopatologia do Humor destaca que a desregulação dos sistemas de energia e afeto pode gerar dias de "exaustão mental" profunda.

O acolhimento dessas oscilações, ao invés da repressão, é uma ferramenta terapêutica valiosa. Permitir-se "esperar o próprio tempo" — como ilustrado na imagem deste post — ajuda a reduzir a ansiedade sobre a própria performance e facilita a reorganização do sistema nervoso para a fase seguinte.

Bibliografia Consultada:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.
MIKOWITZ, D. J. O Livro de Autoajuda para o Transtorno Bipolar. Artmed, 2011.


Hoje está nublado. E tudo bem. Eu fico. Respiro. Espero.
Texto por: Elis Jurado

💬 Se isso te tocou...

Você também tem dias em que o tempo vira sem avisar? Conta aqui embaixo. Se conhecer alguém que vive entre claros e escuros, compartilha. Você não está sozinha.
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A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho ...