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segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando a Realidade Se Quebrou: Delírios e Dissociação na UTI

Quando a Realidade Se Quebrou

Sim… tudo desapareceu.

Eu já estava deitada, com o papel e a caneta firmes nas mãos. A medicação ainda não tinha começado, e na minha mente, nada aconteceria além de um sono tranquilo mais tarde. Eu esperava o aviso dos médicos, o toque das enfermeiras, o início de tudo... Estava bem, confiante. Os eletrodos foram conectados e eu acreditava que teria alguém por perto enquanto eu começava a escrever meus primeiros pensamentos. Minha única expectativa era o incômodo da punção na veia para, finalmente, iniciar o processo.

Mas a realidade não esperou. E então… de repente… Eu já não estava mais ali.

Era como se eu tivesse sido arrancada da realidade. Eu tentava voltar. Tentava recuperar os sentidos. Mas quanto mais eu tentava, mais eu parecia ser puxada para longe. Era uma velocidade absurda. Como aqueles brinquedos de parque de diversão que giram para trás, cada vez mais rápido. Eu estava sendo levada. Longe. Para uma realidade assustadora.

Eu via vultos. Muitos vultos. Em alguns momentos parecia que eu estava no espaço. Tudo era escuro, cheio de estrelas, luzes passando em uma velocidade absurda. Eu tentava me mexer… mas não conseguia. Eu tentava entender o que estava acontecendo comigo… mas nada fazia sentido.

Havia muitas luzes.
Muitos sons.
Objetos barulhentos passando por mim. E vozes. Eu ouvia vozes. Às vezes parecia que eu estava voltando para o quarto. Eu me via ali. Mas tudo parecia um desenho animado. As enfermeiras estavam próximas de mim. Eu via elas. Mas não sabia o que estavam fazendo. Eu pedia ajuda. Mas ninguém fazia nada. Elas pareciam personagens de desenho também. E tinham uma risada horrível. Uma risada assustadora. Eu sentia medo. Angústia. Desespero. Eu queria sair daquilo. Mas elas riam.

Eu tentava voltar para a realidade olhando fixamente para alguma coisa do quarto. Às vezes funcionava por alguns segundos. Eu via o biombo. Nele estava escrito UTI 2. Então eu pensava: “Está tudo certo… eu estou no quarto… estou na UTI.” Mas de repente… O biombo virava um monstro. E tudo começava outra vez.

A Fábrica Infinita

Eu era puxada novamente. Voando pelo espaço. Com medo. Com dúvidas. Sem entender nada. Quando parecia que aquilo estava acabando… Tudo se repetia.

Era como se eu estivesse dentro de uma fábrica. Trabalhando em uma linha de produção. Uma produção infinita. Eu montava cabeças de bonecos. Colocava olhos. Mas nunca acabava. As cabeças vinham cada vez mais rápido. Eu queria que desse a hora de ir embora. Mas elas continuavam chegando. Mais rápido. Mais rápido. O vento batia forte. As cabeças vinham voando na minha direção.

Luzes acendiam por todos os lados. Objetos apareciam com formas estranhas. Às vezes pareciam desenhos animados. Às vezes pareciam objetos de massinha em 3D. Nada fazia sentido. Em alguns momentos eu pensava: “Estou delirando.” Mas logo lembrava: A medicação ainda nem tinha começado. A prancheta e a caneta que estavam comigo… Pareciam ter voado para o espaço.

Eu acreditava em realidades estranhas e mentirosas. E ao mesmo tempo sabia que aquilo era um delírio. Eu queria voltar. Voltar para o quarto. Escrever no papel. Esperar a enfermeira puncionar a veia. Eu ainda estava preocupada com a medicação que deveria começar.

E com algo muito simples: Eu estava com fome. Eu queria que aplicassem logo o remédio para que eu pudesse comer depois. Parecia uma lógica normal… dentro de um mundo completamente sem lógica.

Em um momento senti vontade de ir ao banheiro. Pensei que estava levantando. Mas não estava. Eu fiz xixi. E senti como se a urina girasse em cubos, dando voltas. Pensei que estava usando uma fralda. Mas não era. Parecia um recipiente que armazenava urina. Eu não entendia exatamente. Comecei a ficar irritada. Tentava me mexer. Mas não conseguia.

Aos poucos comecei a passar mais tempo na realidade. Mas tudo ainda girava. Eu me sentia péssima. Com medo. Com desespero. Era como se eu estivesse presa dentro do meu corpo… e o meu cérebro estivesse fora da minha cabeça, voando.... Eu via algumas pessoas. Mas não conseguia pedir ajuda. A vóz não saia, as palavras não saíam. Eu via as enfermeiras me olhando, mas não faziam nada, e até riam... Eu sentia muita náusea. Eu não entendia ainda exatamente o que estava acontecendo.

Foi então que…

Continua no próximo capítulo…


O que a ciência diz sobre a Dissociação e o Delírio

A experiência de "não estar mais ali" ou ser "arrancada da realidade" é descrita na psicopatologia como um estado grave de dissociação. Nesses momentos, a integração da consciência, memória e percepção do ambiente é rompida. No contexto hospitalar e do transtorno bipolar, isso pode ser intensificado pelo estresse extremo do ambiente de UTI, resultando em episódios de Delirium.

Diferente do delírio da psicose, o Delirium (estado confusional agudo) causa flutuações na consciência e distorções sensoriais (como ver as enfermeiras como desenhos animados ou sentir o xixi em cubos). O cérebro, sob forte estresse ou desequilíbrio neuroquímico, tenta processar informações mas acaba criando uma realidade fragmentada e surrealista.

Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Artmed, 2014.

Um momento de partilha

Você já sentiu como se a sua mente estivesse desconectada do seu corpo? Às vezes, colocar essas sensações para fora é o primeiro passo para retomar o controle. Deixe seu comentário se você já viveu algo que a lógica não conseguia explicar.

Texto por: Elis Jurado

terça-feira, 17 de março de 2026

Sobrevivendo à Intoxicação por Lítio: Meu Relato na UTI e o Transtorno Bipolar

Quando eu cheguei ao hospital: intoxicação por lítio, UTI e o silêncio emocional

Cheguei ao hospital acompanhada da minha mãe e da minha esposa. Muita náusea. Vômitos intensos. Diarreia. Tremores. O vômito era tão forte que parecia que meu corpo queria expulsar tudo — como se estivesse tentando sobreviver mesmo quando minha mente já não queria.

Eu tenho diagnóstico de Transtorno Bipolar há pelo menos 7 anos. Faço meu tratamento certinho, tomo as medicações conforme a prescrição, mas a dor, às vezes, é uma onda que atropela até o que é correto. Entrei sozinha na triagem. Ainda não sabia se contaria sobre a ingestão de lítio ou se deixaria quieto. Eu ainda estava dividida entre morrer em silêncio ou aceitar ajuda.

No final, contei. Relatei a ingestão de grande quantidade de lítio, com ideação suicida e um arrependimento confuso — não exatamente por querer viver, mas por não saber mais o que eu queria.

Atendimento imediato e a decisão pela UTI

Fui levada rapidamente para a maca. Já monitorada com ECG, pressão arterial, saturação, frequência cardíaca. O médico entrou em contato com o centro de intoxicação. Coletaram vários tubos de sangue. Iniciaram soro venoso. E então informaram: eu seria transferida para a UTI.

Não foi uma oferta. Foi uma decisão clínica. Eu não queria ir. Na minha cabeça, colocariam soro, diluiriam o lítio e eu iria embora. Eu precisava trabalhar no dia seguinte. Tinha faculdade. Tinha compromissos. Eu ainda tentava agir como se a vida estivesse normal.

Eu havia estudado os efeitos letais do lítio. Mas nunca estudei como se reverte uma intoxicação. Porque minha intenção nunca foi sobreviver.

O que acontece em uma intoxicação por lítio?

O Lítio tem uma margem terapêutica estreita. Mesmo para quem faz o tratamento corretamente há anos, uma ingestão excessiva pode causar alterações eletrolíticas, no ECG, tremores e insuficiência renal. A UTI serve para prevenir complicações graves que surgem horas depois.

O estranho vazio emocional

Me informaram alteração no ECG. Eu não senti medo. Eu estava ali. Sabia onde estava. Sabia o que tinha feito. Mas não sentia quase nada. Vomitei. Tive diarreia. Tive glicemia abaixo de 60. Colocaram glicose na bomba. Monitorização constante. ECG a cada 4 horas. Coleta frequente de sangue.

Eu colaborava. Não dei trabalho. Levantava para ir ao banheiro com ajuda. Quase não comia. Quase não falava. Eu chorava quando a psicóloga vinha. Mas fora isso, era como se eu estivesse anestesiada por dentro.

O arrependimento confuso

Me sentia horrível por ter tentado abandonar minha filha. Me sentia horrível por ter feito minha família sofrer. Me sentia horrível por não aguentar o que parecia “ser o plano de Deus para mim”.

E, ao mesmo tempo, havia um arrependimento estranho por ter buscado socorro. Era como se parte de mim quisesse viver e outra parte achasse que eu tinha falhado até em morrer. Esse é o tipo de pensamento que quase ninguém fala: a culpa por sobreviver.

24 horas depois… e eu não ia embora

Disseram que seriam 24 horas de observação. Depois falaram em 48 horas. Eu seguia estável, mas o cansaço era absoluto. Quando soube que não teria alta, chorei. Eu me conformei, esperando sair no dia seguinte. Eu estava com o celular, mas nada me interessava. Nem redes sociais, nem mensagens. Eu só me sentia pequena. Confusa. Culpada. E vazia.

💬 Vamos conversar?

O "arrependimento confuso" de sobreviver é algo real, pesado e pouco falado. Se você já se sentiu assim ou se esse relato tocou você de alguma forma, não se esconda.

Deixe seu comentário abaixo. Vamos acolher uns aos outros e quebrar esse silêncio.

Continua no próximo capítulo…

Texto por: Elis Jurado

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