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terça-feira, 24 de março de 2026

Quando tudo desapareceu: O efeito da Ketamina no sofrimento extremo

Quando Tudo Ficou em Silêncio

Depois de 24 horas internada, eu ainda não tinha recebido alta.

Passaram 48 horas… e também não.

Eu estava sendo bem atendida. Monitorada o tempo todo. Os aparelhos não saíam de perto de mim. Em algum momento disseram que houve uma alteração no meu coração, algo no ECG, mas eu estava tão desligada de tudo que nem quis saber detalhes.

Meu corpo parecia uma montanha-russa.

Minha pressão variava de 8 por 5 até 19 por 11.
Recebia glicose o tempo todo.
Reposição de eletrólitos constantemente.

Eu estava ali… mas ao mesmo tempo não estava.

Alguns amigos vieram me visitar. Eu não contei o que tinha acontecido. Apenas disse que estavam investigando uma alteração no coração. Era mais fácil assim.

Fisicamente eu estava estável. Não houve intercorrências graves.
Mas por dentro… o choro não parava.

A equipe do hospital era grande. Além da parte clínica, psicólogos, psiquiatras e até fisioterapeutas passavam para me acompanhar. Eu conseguia fazer quase tudo sozinha, mas não me deixavam levantar sem ajuda.

E isso me incomodava. Eu me sentia mal em chamar a equipe. Parecia que eu estava atrapalhando.

Em alguns momentos eu até me arrependia de ter contado que tinha ingerido lítio. Era estranho admitir isso até para mim mesma. Porque a verdade é que eu queria viver. Mas também não queria estar ali. Era um misto muito confuso de sentimentos.

Eu quase não pegava o celular. Não assistia televisão. O barulho constante dos aparelhos da UTI me deixava ainda mais irritada. Aqueles bipes pareciam ecoar dentro da minha cabeça.

Em um desses dias, a equipe de saúde mental entrou no quarto. Eles falaram sobre um medicamento que estavam utilizando no hospital para alguns pacientes em sofrimento intenso. Um medicamento administrado pela veia, com efeito rápido, que poderia ajudar a aliviar aquela tristeza profunda: a Ketamina (Cetamina).

Disseram que poderia dar náusea ou vômito, mas que administrariam outra medicação para evitar isso. Também falaram que eu poderia dormir. Eu não vi problema. Na verdade… parecia uma chance de sentir algo diferente daquele peso.

Eu não queria sentir aquela tristeza. Nem aquele medo. Nem aquela angústia. Nem aquela sobrecarga emocional. E ao mesmo tempo… eu também não sentia quase nada. Aceitei.

Mais tarde, à noite, o psiquiatra voltou ao quarto. Conversou comigo. Eu precisava ficar três horas em jejum antes da aplicação. Ele fez várias perguntas. Disse que precisava comparar minhas respostas depois da medicação. Pareciam testes psicológicos, perguntas sobre humor, pensamentos, sentimentos.

Eu estava consciente, orientada e tranquila. Pedi para puncionarem outra veia, porque a que estava no braço já estava doendo muito. Levantei, fui ao banheiro sozinha, voltei e me deitei novamente.

Ligaram os aparelhos de monitoramento outra vez. Eu estava com um papel e uma caneta nas mãos. Minha ideia era escrever o que eu sentia. Colocar para fora alguma coisa daquele turbilhão que estava preso dentro de mim.

Talvez escrever ajudasse. Talvez fosse a única forma de explicar o que nem eu mesma conseguia entender.

Mas então…
De repente…
Tudo desapareceu.

Continua no próximo capítulo…


Texto por: Elis Jurado

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