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terça-feira, 17 de março de 2026

Sobrevivendo à Intoxicação por Lítio: Meu Relato na UTI e o Transtorno Bipolar

Quando eu cheguei ao hospital: intoxicação por lítio, UTI e o silêncio emocional

Cheguei ao hospital acompanhada da minha mãe e da minha esposa. Muita náusea. Vômitos intensos. Diarreia. Tremores. O vômito era tão forte que parecia que meu corpo queria expulsar tudo — como se estivesse tentando sobreviver mesmo quando minha mente já não queria.

Eu tenho diagnóstico de Transtorno Bipolar há pelo menos 7 anos. Faço meu tratamento certinho, tomo as medicações conforme a prescrição, mas a dor, às vezes, é uma onda que atropela até o que é correto. Entrei sozinha na triagem. Ainda não sabia se contaria sobre a ingestão de lítio ou se deixaria quieto. Eu ainda estava dividida entre morrer em silêncio ou aceitar ajuda.

No final, contei. Relatei a ingestão de grande quantidade de lítio, com ideação suicida e um arrependimento confuso — não exatamente por querer viver, mas por não saber mais o que eu queria.

Atendimento imediato e a decisão pela UTI

Fui levada rapidamente para a maca. Já monitorada com ECG, pressão arterial, saturação, frequência cardíaca. O médico entrou em contato com o centro de intoxicação. Coletaram vários tubos de sangue. Iniciaram soro venoso. E então informaram: eu seria transferida para a UTI.

Não foi uma oferta. Foi uma decisão clínica. Eu não queria ir. Na minha cabeça, colocariam soro, diluiriam o lítio e eu iria embora. Eu precisava trabalhar no dia seguinte. Tinha faculdade. Tinha compromissos. Eu ainda tentava agir como se a vida estivesse normal.

Eu havia estudado os efeitos letais do lítio. Mas nunca estudei como se reverte uma intoxicação. Porque minha intenção nunca foi sobreviver.

O que acontece em uma intoxicação por lítio?

O Lítio tem uma margem terapêutica estreita. Mesmo para quem faz o tratamento corretamente há anos, uma ingestão excessiva pode causar alterações eletrolíticas, no ECG, tremores e insuficiência renal. A UTI serve para prevenir complicações graves que surgem horas depois.

O estranho vazio emocional

Me informaram alteração no ECG. Eu não senti medo. Eu estava ali. Sabia onde estava. Sabia o que tinha feito. Mas não sentia quase nada. Vomitei. Tive diarreia. Tive glicemia abaixo de 60. Colocaram glicose na bomba. Monitorização constante. ECG a cada 4 horas. Coleta frequente de sangue.

Eu colaborava. Não dei trabalho. Levantava para ir ao banheiro com ajuda. Quase não comia. Quase não falava. Eu chorava quando a psicóloga vinha. Mas fora isso, era como se eu estivesse anestesiada por dentro.

O arrependimento confuso

Me sentia horrível por ter tentado abandonar minha filha. Me sentia horrível por ter feito minha família sofrer. Me sentia horrível por não aguentar o que parecia “ser o plano de Deus para mim”.

E, ao mesmo tempo, havia um arrependimento estranho por ter buscado socorro. Era como se parte de mim quisesse viver e outra parte achasse que eu tinha falhado até em morrer. Esse é o tipo de pensamento que quase ninguém fala: a culpa por sobreviver.

24 horas depois… e eu não ia embora

Disseram que seriam 24 horas de observação. Depois falaram em 48 horas. Eu seguia estável, mas o cansaço era absoluto. Quando soube que não teria alta, chorei. Eu me conformei, esperando sair no dia seguinte. Eu estava com o celular, mas nada me interessava. Nem redes sociais, nem mensagens. Eu só me sentia pequena. Confusa. Culpada. E vazia.

💬 Vamos conversar?

O "arrependimento confuso" de sobreviver é algo real, pesado e pouco falado. Se você já se sentiu assim ou se esse relato tocou você de alguma forma, não se esconda.

Deixe seu comentário abaixo. Vamos acolher uns aos outros e quebrar esse silêncio.

Continua no próximo capítulo…

Texto por: Elis Jurado

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terça-feira, 10 de março de 2026

Quando a dor grita mais alto que a razão: vozes, lítio e a noite em que eu quis morrer

Quando a dor grita mais alto que a razão

Eu já não estava bem. Chorava fácil. As vozes estavam comigo há quase um mês. Ideias suicidas iam e voltavam. Mas eu não queria aborrecer ninguém. Porque ninguém entende.

Um desentendimento com minha filha, somado a um nível de estresse já alto, foi o gatilho. Não foi “o motivo”. Foi o estopim. Algo tomou conta de mim. Eu me feri com uma faca. Agredi minha filha de leve. Bati minha cabeça contra a parede. Dei socos na parede. Eu encontrei uma força que não parecia minha.

Chorei desesperadamente. E o pior sentimento não era a dor física. Era ter perdido o controle. Pedi perdão à minha filha. Mas dentro de mim já havia uma certeza silenciosa: eu não queria mais viver. Fui contida por familiar. Chorei até adormecer.

No dia seguinte acordei com os olhos inchados. No caminho para o trabalho da minha filha, crises de choro constantes. Voltei para casa tentando me recompor. Eu chorava, mas naquele momento não pensava em morrer. Até saber que minha filha distorceu o que havia acontecido. Eu odeio mentira. Ela mentiu. Inventou coisas.

Aquilo me atravessou como abandono. Vieram raiva, vergonha, culpa, dor. E as vozes. A voz de um homem gritava que nada teria solução. Que eu precisava ir embora deste mundo.

Eu já havia pesquisado sobre a letalidade do Lítio semanas antes. Sabia dos riscos e das sequelas. Mas naquele momento eu não pensava em sequelas. Eu só queria cessar o sofrimento. Eu não queria viver. Ingeri grande quantidade da medicação. Calculei o horário, planejei estar sozinha. Não contei a ninguém.

Cerca de 20 minutos depois, comecei a vomitar. Vômitos constantes, diarreia, mal-estar intenso. E, estranhamente, eu estava em paz. Eu me organizei: escrevi senhas, fiz uma carta de despedida.

Familiar percebeu os vômitos, insistiu para irmos ao hospital. Recusei. Chamaram minha mãe. Quando ela chegou, eu chorei muito. A voz gritava: “Não vá ao hospital”. Mas, em algum lugar dentro de mim, havia algo que queria uma chance. Aceitei ir. Entrei na triagem sozinha e contei apenas para a enfermeira. Ali começava outra história.

(continua...)


🧠 O que a ciência explica

Crises suicidas muitas vezes não são decisões frias e lineares. São estados de desregulação intensa, onde há ativação extrema do sistema de estresse e redução da capacidade racional. Vozes podem surgir em quadros psicóticos ou afetivos e o impulso supera o medo de consequências.

Estudos mostram que muitas tentativas ocorrem em janelas curtas de impulsividade aguda. Sobreviver não significa que não foi grave. Significa que houve intervenção — externa ou interna.

Texto por: Elis Jurado

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