Quando a dor grita mais alto que a razão
Eu já não estava bem. Chorava fácil. As vozes estavam comigo há quase um mês. Ideias suicidas iam e voltavam. Mas eu não queria aborrecer ninguém. Porque ninguém entende.
Um desentendimento com minha filha, somado a um nível de estresse já alto, foi o gatilho. Não foi “o motivo”. Foi o estopim. Algo tomou conta de mim. Eu me feri com uma faca. Agredi minha filha de leve. Bati minha cabeça contra a parede. Dei socos na parede. Eu encontrei uma força que não parecia minha.
Chorei desesperadamente. E o pior sentimento não era a dor física. Era ter perdido o controle. Pedi perdão à minha filha. Mas dentro de mim já havia uma certeza silenciosa: eu não queria mais viver. Fui contida por familiar. Chorei até adormecer.
No dia seguinte acordei com os olhos inchados. No caminho para o trabalho da minha filha, crises de choro constantes. Voltei para casa tentando me recompor. Eu chorava, mas naquele momento não pensava em morrer. Até saber que minha filha distorceu o que havia acontecido. Eu odeio mentira. Ela mentiu. Inventou coisas.
Aquilo me atravessou como abandono. Vieram raiva, vergonha, culpa, dor. E as vozes. A voz de um homem gritava que nada teria solução. Que eu precisava ir embora deste mundo.
Eu já havia pesquisado sobre a letalidade do Lítio semanas antes. Sabia dos riscos e das sequelas. Mas naquele momento eu não pensava em sequelas. Eu só queria cessar o sofrimento. Eu não queria viver. Ingeri grande quantidade da medicação. Calculei o horário, planejei estar sozinha. Não contei a ninguém.
Cerca de 20 minutos depois, comecei a vomitar. Vômitos constantes, diarreia, mal-estar intenso. E, estranhamente, eu estava em paz. Eu me organizei: escrevi senhas, fiz uma carta de despedida.
Familiar percebeu os vômitos, insistiu para irmos ao hospital. Recusei. Chamaram minha mãe. Quando ela chegou, eu chorei muito. A voz gritava: “Não vá ao hospital”. Mas, em algum lugar dentro de mim, havia algo que queria uma chance. Aceitei ir. Entrei na triagem sozinha e contei apenas para a enfermeira. Ali começava outra história.
(continua...)
🧠 O que a ciência explica
Crises suicidas muitas vezes não são decisões frias e lineares. São estados de desregulação intensa, onde há ativação extrema do sistema de estresse e redução da capacidade racional. Vozes podem surgir em quadros psicóticos ou afetivos e o impulso supera o medo de consequências.
Estudos mostram que muitas tentativas ocorrem em janelas curtas de impulsividade aguda. Sobreviver não significa que não foi grave. Significa que houve intervenção — externa ou interna.
Texto por: Elis Jurado
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Se você já esteve à beira de perder o controle, saiba: crises passam. Elas mentem, distorcem e convencem que não há saída. Mas há.
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