A Escuta e o Alívio da Alta
Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e também para me dar alta. Foi então que a porta do quarto abriu novamente.
Entrou outro psiquiatra. Ele se apresentou — era um médico que ainda não tinha ido me ver antes. Parecia ser alguém com mais autoridade na equipe, talvez um chefe. Mas se apresentou de forma muito respeitosa. Disse que soube do que havia acontecido e que entendia a minha insatisfação e a quebra de confiança.
Depois começou a explicar com calma sobre a clínica psiquiátrica: como era o funcionamento, o tipo de tratamento, a rotina. Ele também reconheceu que os colegas não haviam conduzido a situação da melhor forma. Disse claramente que deveriam ter conversado comigo antes, explicado, orientado e perguntado se eu aceitava.
Falamos também sobre a administração da cetamina. Expliquei que não tinha recebido as orientações necessárias. Ele concordou que o ideal teria sido uma abordagem diferente, inclusive com um termo de consentimento. Comentou que a cetamina costuma ser utilizada em pacientes com quadros muito graves, o que não era exatamente a minha situação.
Foi uma conversa boa. Pela primeira vez senti que alguém estava realmente escutando. Ele demonstrou uma visão mais ampla e muito respeito. Eu estava bem calma naquele momento. Expliquei para ele que compreendia a questão da internação, mas que o problema principal tinha sido a forma como tudo aconteceu. A sensação que tive foi de que a equipe estava tramando algo contra mim.
Também comentei que muitos profissionais mais jovens precisam ser melhor preparados para respeitar o indivíduo, para dialogar e para seguir os protocolos legais e éticos. A impressão que tive foi que muitos estavam motivados pela oportunidade de aplicar uma medicação que não usam com frequência, talvez para observar resultados, aprender mais… Todos concordaram. Só não conversaram comigo.
Depois dessa conversa, ele decidiu me dar alta, como já havia combinado e até gravado no dia anterior.
O médico clínico passou no quarto, avaliou o braço, prescreveu antibiótico por causa da flebite e, finalmente, recebi alta. Saí do hospital com três flebites, os braços cheios de hematomas, muita indignação e também muita tristeza com a forma como a saúde mental ainda é conduzida.
Isso me impacta ainda mais porque estou estudando para me tornar psicóloga. Saber que, no futuro, terei que conviver e trabalhar ao lado de profissionais que agem dessa forma é algo difícil de aceitar.
Voltei para casa. Queria ficar em silêncio. Minha filha comentou que talvez tivesse sido melhor eu ter ficado internada. Sei que ela não falou por maldade, mas aquilo me deixou muito triste. Porque, se fosse ela no meu lugar, eu iria querer que estivesse perto de mim. Nos próximos textos vou contar como foram os dias em casa.
(continua…)
O Olhar da Psicologia:
A Escuta Ativa como Reparação
O relato da Elis expõe como a falha ética e a quebra de protocolos podem causar danos psicológicos profundos (iatrogenia). A conversa com o psiquiatra chefe foi um ato de reparação clínica e ética.
Ao escutar a paciente, validar a sua indignação e reconhecer o erro da equipe, o médico restaurou a dignidade de Elis, permitindo que ela saísse do hospital não como um "corpo respirando", mas como um sujeito de direitos.
Este caso reforça que a Humanização na saúde não é um favor, é uma obrigação legal.
A aliança terapêutica — a confiança entre paciente e equipe — é o fator de cura mais importante. Sem diálogo e consentimento, o tratamento se torna uma imposição que fere e traumatiza.
Bibliografia de Apoio:
Código de Ética Profissional dos Psicólogos.
Lei nº 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica).
💬 A escuta é o primeiro passo para o cuidado verdadeiro.
Você já passou por uma situação onde sentiu que o seu "consentimento" foi ignorado em um tratamento de saúde? Ou, ao contrário, já teve a experiência de ser realmente ouvido por um profissional, e como isso mudou a sua percepção de cura? Sua história é muito importante. Compartilhe sua experiência nos comentários.
Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado
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