O Medo do "Depois" e o Silêncio das Vozes
As vozes tinham desaparecido. Eu já não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava apenas aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria. Perguntaram como eu estava.
Eu respondi que estava bem — ou pelo menos melhor — mas que ainda sentia meus pensamentos um pouco desorganizados. Disse também que já não sentia aquela vontade constante de chorar e que acreditava que em breve receberia alta médica. O psiquiatra permaneceu um tempo comigo. Ele começou a fazer perguntas sobre coisas mais antigas. Perguntou o que havia me levado a usar o lítio em excesso, já que fazia menos de dois meses da minha última consulta psiquiátrica, e naquela consulta eu havia dito que estava bem.
Eu expliquei...
Naquela consulta eu estava realmente bem.
Disse a ele que convivo com o diagnóstico de transtorno bipolar há muitos anos, e que, com o tempo, aprendi a perceber quando algo dentro de mim começa a mudar, quando sinto que as coisas podem não caminhar bem.
Mas, naquela ocasião, eu estava bem de verdade.
Esse “estar bem” sempre me traz alegria, mas também me deixa em alerta. Porque, muitas vezes, depois de um período de estabilidade, acaba vindo a depressão.
Mesmo assim, naquele momento estava tudo tranquilo. Eu realmente me sentia bem. A única coisa que me incomodava era uma dificuldade de concentração, que estava me prejudicando na faculdade.
E foi exatamente isso que eu disse naquela consulta:
— Eu estou bem… mas tenho medo do depois, pois já faz um tempinho que estou bem.
E o depois veio. Veio com crises intensas de choro, com ansiedade, com falta de esperança, com medo. Ao mesmo tempo surgiram vários gatilhos externos. Situações que não dependiam de mim, que eu não conseguia controlar nem evitar. Tudo começou a se acumular. E foi piorando. Como existiam motivos concretos para eu estar triste, eu não me preocupei tanto no começo. Pensei que fosse uma reação aos acontecimentos. Algo compreensível.
Pensei em ir ao pronto-socorro várias vezes. Mas sempre dizia para mim mesma que ia passar. Que era só uma fase difícil. Que os gatilhos estavam muito evidentes. Só que, aos poucos, minha mente começou a mudar de um jeito assustador. Quase todos os dias eu comecei a me preparar para morrer. Foi nesse momento que as vozes apareceram.
Elas diziam coisas como:
- Que eu nunca sairia daquela situação.
- Que felicidade não existia para mim.
- Que eu era um peso na vida das pessoas.
- Que ninguém gostava de mim de verdade.
E o mais assustador… é que parecia real. Tão real que, em algum momento, eu concordei com elas. Com medo de tentar algo e dar errado, comecei a pesquisar formas de garantir que tudo acontecesse “perfeitamente”. Foi então que percebi que tinha uma arma poderosa nas mãos: o lítio. Mas também deixei essa ideia de lado por um tempo. Eu tinha medo de que não funcionasse e eu acabasse sobrevivendo com sequelas.
Então comecei a procurar outra forma. Fui atrás de um revólver. Assim eu imaginava que estaria tudo pronto quando chegasse a hora certa. Consegui, com dificuldade, encontrar um calibre .22. Cheguei até a tentar me matricular em um curso para porte de arma, tentando seguir um caminho “legal”, mas não consegui. Mesmo assim falei para o rapaz reservar o calibre .22 para mim. Só havia um problema: ele não tinha munição.
É curioso como a mente pode entrar num lugar tão estranho… eu tinha medo de alguém pegar aquilo e eu acabar presa. O rapaz disse que não conseguiria a munição. Mesmo assim continuei procurando. Sem muita pressa. Como se aquilo fosse apenas uma possibilidade guardada para o futuro. Até que chegou o dia 08/02/2026. Nesse dia aconteceram problemas em casa. Outro gatilho foi disparado.
Consegui me manter relativamente bem naquele dia, mas no dia seguinte eu acordei com o rosto inchado de tanto chorar. As crises de choro voltaram muito fortes. Mesmo assim saí para trabalhar. Levei minha filha até o ponto e logo eu comecei a chorar...
E foi ali que as vozes voltaram com força. Elas mandaram eu voltar para casa. Disseram para eu avisar no trabalho que entraria mais tarde. Eu obedeci. Voltei para casa. Liguei o computador. Comecei a fazer algumas coisas do trabalho...
Mas…
Continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.
O Olhar da Psicologia: A Ideação Estruturada
O relato da Elis descreve com precisão o fenômeno da ideação suicida estruturada. Diferente de um impulso momentâneo, aqui a mente busca meios, métodos e justificativas lógicas (gatilhos externos) para validar o sofrimento. As "vozes" mencionadas podem ser interpretadas clinicamente como pensamentos intrusivos de caráter depressivo grave, que distorcem a percepção da realidade e do valor próprio.
A ambivalência — o desejo de morrer em conflito com o medo de sobreviver com sequelas ou de ter problemas legais — é uma característica comum. Reconhecer esses sinais precocemente, como a Elis tentou fazer na consulta anterior, é o ponto crucial para a intervenção em crises de saúde mental.
Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed.
OMS. Prevenção do Suicídio: Um Manual para Conselheiros.
💬 E você? Já sentiu que o "estar bem" de hoje escondia um medo profundo do que viria a seguir? Já precisou de coragem para nomear e enfrentar seus próprios gatilhos? Compartilhe sua experiência nos comentários. Sua história pode ser a luz que alguém precisa encontrar.
Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado
Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. CVV – 188 (24h, gratuito).

