O Despertar Traumático e o Sentimento de Omissão
A madrugada foi passando lentamente. O dia começou a amanhecer. Em algum momento consegui cochilar um pouco. E quando acordei… estava acontecendo a troca de plantão.
Eu ainda estava em crise de choro. Tudo parecia rodar. Minha fala saía difícil, enrolada. Eu não conseguia levantar. Meu corpo parecia pesado, estranho… e eu estava muito molhada.
Logo depois da troca de plantão, a enfermeira veio se apresentar. Eu disse a ela que estava molhada e também falei o quanto estava triste e irada por estar naquela situação que eu não escolhi viver. Ela foi me trocar.
Eu estava muito molhada mesmo. Fiz muito xixi — um dos efeitos da intoxicação pelo lítio. Além disso, eu estava recebendo glicose e eletrólitos em bomba de infusão, o que aumenta muito a produção de urina. Ela me deu um banho de leito. Naquele momento aconteceu algo estranho dentro de mim: ao mesmo tempo em que eu me sentia cuidada, eu também me sentia mal.
Mal porque eu não precisava estar naquela situação. Mal porque eu sentia vergonha. Eu quase não conseguia ajudar. Meus braços e pernas até se mexiam um pouco, mas estavam pesados, lentos, como se não fossem meus. Ela trocou o lençol, colocou outra camisola. Fez tudo o que podia fazer naquele momento, porque eu ainda estava muito sob efeito da medicação e não conseguia levantar. Colocou fralda novamente. E isso é horrível. Porque a fralda vaza, o xixi passa… e logo eu estaria molhada de novo.
Minha companheira chegou. Quando a vi, consegui me acalmar um pouco. Mas meu corpo parecia travado. Era uma sensação assustadora: minha mente mandava eu levantar o braço, olhar para o lado… e meus membros não obedeciam.
Não demorou muito e o psiquiatra chegou. Ele chegou feliz. Parecia imaginar que eu teria gostado da experiência e que estaria bem. Ele provavelmente esperava me encontrar animada, talvez até agradecida. Mas me encontrou naquela situação. Perguntou como eu estava. Eu disse que estava mal. E que sentia muita raiva e muita tristeza ao mesmo tempo.
Ele respondeu que a maioria das pessoas não passam pelos efeitos que aconteceram comigo. Disse que muitos pacientes gostam da experiência, e por isso ele tinha certeza de que me encontraria bem e até querendo fazer outra dose em três dias. Ele me perguntou o que eu estava sentindo. Perguntou o que eu tinha vontade de fazer. Eu respondi com toda a honestidade que cabia naquele momento:
"Se eu conseguisse levantar, eu iria embora dali… e eu estava com tanta raiva que eu 'mataria ele'."
Não era um plano. Era desespero e indignação falando. Eu disse a ele que me senti enganada. Porque ele me falou da parte boa, de como aquilo poderia ajudar… mas não me falou da parte ruim. Não explicou que efeitos colaterais assim poderiam acontecer, mesmo que não aconteçam com todo mundo. E se um medicamento pode provocar algo assim, eu tinha o direito de saber.
Também disse que nem me avisaram quando começaram a passar a cetamina. Usaram a mesma veia que já estava ruim, aquela que eu tinha avisado que doía e que precisava trocar. E ninguém ficou comigo. Eu voltei à realidade sozinha. Com medo. Com angústia. Assustada. Com vergonha. Presa. Molhada. Suja. Sem conseguir me mexer. Sem ninguém ali para conversar comigo. Eu estava confusa, sem entender o que tinha acontecido. Disse a ele que estava muito triste mesmo. Ele ouviu… e saiu. Mas o sentimento de ter sido enganada pela omissão das informações foi muito grande. Tão grande que eu ainda sinto isso hoje.
Minha companheira ficou comigo. Consegui tomar café da manhã. Eu estava com muita fome. Ainda não conseguia forças para levantar, então para não ficar molhada eu pedia a comadre toda hora para fazer xixi. É muito ruim. Perguntei para uma paciente que estava lá por que tinham me amarrado. Ela disse que não entendeu também. Disse que foi falar com o médico para alguém ir me ver, e que ele foi grosseiro com ela.
Passei muito tempo tentando entender o que tinha acontecido. As enfermeiras daquele plantão me disseram que essa cetamina geralmente é usada em pacientes que estão sedados ou entubados. Acho que, por causa da grande carga de estresse que eu estava vivendo, foi prescrito clonazepam e quetiapina — medicações que eu já tinha pedido dias antes, porque estava ouvindo algumas vozes intrusivas.
O resultado foi um dia inteiro sem conseguir levantar da cama. Passei a maior parte do tempo dormindo. Mas quando acordava, vinha uma ansiedade enorme. Às vezes eu chorava. Eu me sentia perdida. A veia? aquela mesma que eu tinha dito que estava doendo… Não trocaram. Administraram a medicação na mesma veia. Comecei a sentir muita dor. Quando foram ver, eu estava desenvolvendo uma flebite. Foi só então que trocaram o acesso. Fiquei triste também por isso. Porque eu estava na UTI. E ter flebite já não é bom em lugar nenhum… mas na UTI, onde são cuidados intensivos, é ainda mais complicado.
Em uma passagem de plantão eu ouvi algo. Disseram que meus eletrólitos estavam quase normalizados, que meus batimentos cardíacos já estavam normais e que eu estava aguardando vaga na clínica psiquiátrica. Mas eu apenas ouvi. Ninguém falou isso diretamente para mim. Falei com minha companheira. Ela disse que não sabia de nada. Eu entendi e concordei. Mas aquela informação ficou na minha cabeça. Porque eu tinha certeza de que estavam falando de mim.
Eu ainda não conseguia levantar. Continuei usando a comadre, mas já conseguia sentar na cama e me alimentar. A tarde passou. A noite também. No dia seguinte aceitei a fruta do café da manhã. Eu estava melhor. As vozes tinham desaparecido. Eu não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria… E então…
Continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.
O Olhar da Psicologia: O Trauma da Omissão
O relato da Elis expõe a importância do Consentimento Informado. Na saúde mental, a transparência sobre efeitos colaterais (como a dissociação ou a perda de controle motor) é parte do tratamento. A sensação de "ser enganada" gera um trauma que pode dificultar a adesão a tratamentos futuros.
Além disso, o desenvolvimento de uma flebite em ambiente de cuidados intensivos, após alertas da paciente, demonstra uma falha na Humanização Hospitalar. O paciente na UTI não perde sua autonomia; ele continua sendo o sujeito de sua própria história.
Bibliografia de Apoio:
PNH. HumanizaSUS: Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde.
FOUCAULT, M. O Nascimento da Clínica. Ed. Forense.
Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado
