terça-feira, 7 de abril de 2026

Relato Real: Minha experiência traumática com Ketamina na UTI

Quando a Realidade Se Quebrou

Foi então que… devido a muitas náuseas comecei a vomitar. Eu não conseguia me mexer. Não entendia por quê. Mal conseguia virar a cabeça para vomitar. O vômito veio em jatos. Caiu na cama. Caiu em mim. E eu ali… sem conseguir me mexer, sem entender o que estava acontecendo.

Foi nesse momento que fiquei ainda mais confusa. Eu não sabia se haviam feito a medicação (Cetamina) ou não, porque não me lembrava de ninguém ter me avisado. E também porque tinham dito que dariam um medicamento para eu não vomitar… Mas eu estava vomitando. Vomitei três vezes seguidas.

Mesmo confusa, lembro muito bem de uma coisa: A enfermeira estava olhando. Ela não me ajudou. Não virou minha cabeça para o lado. Não me limpou. Não limpou o chão. Elas apenas ficavam me olhando de longe.

Eu estava muito agitada. Os pensamentos corriam a milhão. E eu estava profundamente triste, porque estava vivendo tudo aquilo sem entender o que estava acontecendo comigo. Passou algum tempo. Foi então que percebi que estava amarrada ao leito. Por isso eu não conseguia me mexer. Mas ninguém tinha me dito que fariam aquilo.

Foi nesse momento que comecei a entender que já tinham administrado a droga… (a ketamina) E eu não sabia. A paciente que estava no mesmo quarto que eu foi ao banheiro e me viu toda suja de vômito. Ela chamou a enfermeira, que estava na porta apenas olhando. Então a enfermeira veio até mim e passou um papel na minha boca para limpar um pouco.

Eu pedi para ela me desamarrar. Ela soltou meus braços… E saiu. Tentei mexer as pernas. Não consegui. Foi então que compreendi que minhas pernas também estavam presas. Eu estava suja. Presa. Molhada. Com muito medo. Assustada. Ninguém veio conversar comigo.

O psiquiatra havia dito que a equipe ficaria observando e acompanhando. Mas eu estava sozinha. Fui entendendo aos poucos que talvez não tivessem me contado tudo… Porque eu provavelmente não aceitaria. E de fato… Se tivessem me explicado o que aquela droga poderia causar, eu realmente não teria aceitado.

Comecei a perceber que tinham iniciado a administração sem me avisar. E ainda utilizaram a mesma veia que já estava com problemas. Ligaram o medicamento… E eu nem percebi. Foi por isso que comecei a entrar em delírios. Por isso eu não me lembrava. Também percebi que estava de fraldas.

Cada minuto que passava eu sentia mais tristeza. Eu me sentia enganada. Ninguém me disse que eu poderia ter tanta dissociação. Ninguém me disse que poderiam me amarrar. Ninguém me disse que colocariam fraldas. Eu estava sozinha. Suja. Muito mal. E ninguém vinha ficar comigo.

Eu não conseguia falar direito. Acredito que pelo efeito da medicação… Mas também por toda a angústia, dor, sensação de abandono, tristeza e desespero que eu estava sentindo. Consegui dizer para a enfermeira que tudo estava rodando. Eu sentia muita náusea. Pedi para soltarem minhas pernas. Ela não gostou. Mas acabou soltando.

Consegui dizer também que eu estava molhada. Olhei para o relógio na parede. Eram duas horas da manhã. A enfermeira colocou outra fralda em mim. E eu não conseguia lembrar de nada do que tinha acontecido antes do início dos delírios. Eu estava muito triste. Com muita náusea. Com muita tontura. Me sentindo abandonada. Me sentindo enganada. Sem controle de absolutamente nada.

Eu não precisava daquilo. E tenho certeza de que não teria aceitado se tivessem me explicado direito. Era meu direito saber. Consegui pedir para a paciente do quarto colocar meu celular desbloqueado na minha mão. E comecei a enviar mensagens para minha companheira. Eu queria ir embora. Eu estava com medo de ficar ali. Eu chorava muito. Estava arrasada. O tempo não passava. E eu não conseguia dormir.

Em algum momento a enfermeira apareceu com uma medicação que disse ser para o vômito. Consegui perguntar por que tinham me amarrado. Ela disse que eu estava muito agitada. Mas eu não me lembro. A madrugada foi passando. O dia foi amanhecendo. Consegui cochilar um pouco. E quando acordei… estava acontecendo a troca de plantão.

Eu ainda estava em crise de choro. Tudo parecia rodar. Minha fala saía difícil, enrolada. Eu não conseguia levantar. Meu corpo parecia pesado, estranho… e eu estava muito molhada. Logo depois da troca de plantão, a enfermeira veio se apresentar. Eu disse a ela que estava molhada e também falei o quanto estava triste e irada por estar naquela situação que eu não escolhi viver. Ela foi me trocar.

Eu estava muito molhada mesmo. Fiz muito xixi — um dos efeitos da intoxicação pelo lítio. Além disso, eu estava recebendo glicose e eletrólitos em bomba de infusão, o que aumenta muito a produção de urina. Ela me deu um banho de leito. Naquele momento aconteceu algo estranho dentro de mim: ao mesmo tempo em que eu me sentia cuidada, eu também me sentia mal. Mal porque eu não precisava estar naquela situação. Mal porque eu sentia vergonha. Eu quase não conseguia ajudar. Meus braços e pernas até se mexiam um pouco, mas estavam pesados, lentos, como se não fossem meus. Ela trocou o lençol, colocou outra camisola. Fez tudo o que podia fazer naquele momento, porque eu ainda estava muito sob efeito da medicação e não conseguia levantar. Colocou fralda novamente. E isso é horrível. Porque a fralda vaza, o xixi passa… e logo eu estaria molhada de novo.

Minha companheira chegou. Quando a vi, consegui me acalmar um pouco. Mas meu corpo parecia travado. Era uma sensação assustadora: minha mente mandava eu levantar o braço, olhar para o lado… e meus membros não obedeciam. Não demorou muito e o psiquiatra chegou. Ele chegou feliz. Parecia imaginar que eu teria gostado da experiência e que estaria bem. Ele provavelmente esperava me encontrar animada, talvez até agradecida. Mas me encontrou naquela situação. Perguntou como eu estava. Eu disse que estava mal. E que sentia muita raiva e muita tristeza ao mesmo tempo.

"Se eu conseguisse levantar, eu iria embora dali… e eu estava com tanta raiva que eu 'mataria ele'."

Não era um plano. Era desespero e indignação falando. Eu disse a ele que me senti enganada. Porque ele me falou da parte boa, de como aquilo poderia ajudar… mas não me falou da parte ruim. Não explicou que efeitos colaterais assim poderiam acontecer, mesmo que não aconteçam com todo mundo. E se um medicamento pode provocar algo assim, eu tinha o direito de saber. Também disse que nem me avisaram quando começaram a passar a cetamina. Usaram a mesma veia que já estava ruim, aquela que eu tinha avisado que doía e que precisava trocar. E ninguém ficou comigo. Eu voltei à realidade sozinha. Com medo. Com angústia. Assustada. Com vergonha. Presa. Molhada. Suja. Sem conseguir me mexer. Sem ninguém ali para conversar comigo. Eu estava confusa, sem entender o que tinha acontecido. Disse a ele que estava muito triste mesmo. Ele ouviu… e saiu. Mas o sentimento de ter sido enganada pela omissão das informações foi muito grande. Tão grande que eu ainda sinto isso hoje.

Minha companheira ficou comigo. Consegui tomar café da manhã. Eu estava com muita fome. Ainda não conseguia forças para levantar, então para não ficar molhada eu pedia a comadre toda hora para fazer xixi. É muito ruim. Perguntei para uma paciente que estava lá por que tinham me amarrado. Ela disse que não entendeu também. Disse que foi falar com o médico para alguém ir me ver, e que ele foi grosseiro com ela.

Passei muito tempo tentando entender o que tinha acontecido. As enfermeiras daquele plantão me disseram que essa cetamina geralmente é usada em pacientes que estão sedados ou entubados. Acho que, por causa da grande carga de estresse que eu estava vivendo, foi prescrito clonazepam e quetiapina — medicações que eu já tinha pedido dias antes, porque estava ouvindo algumas vozes intrusivas. O resultado foi um dia inteiro sem conseguir levantar da cama. Passei a maior parte do tempo dormindo. Mas quando acordava, vinha uma ansiedade enorme. Às vezes eu chorava. Eu me sentia perdida.

A veia? aquela mesma que eu tinha dito que estava doendo… Não trocaram. Administraram a medicação na mesma veia. Comecei a sentir muita dor. Quando foram ver, eu estava desenvolvendo uma flebite. Foi só então que trocaram o acesso. Fiquei triste também por isso. Porque eu estava na UTI. E ter flebite já não é bom em lugar nenhum… mas na UTI, onde são cuidados intensivos, é ainda mais complicado.

Em uma passagem de plantão eu ouvi algo. Disseram que meus eletrólitos estavam quase normalizados, que meus batimentos cardíacos já estavam normais e que eu estava aguardando vaga na clínica psiquiátrica. Mas eu apenas ouvi. Ninguém falou isso diretamente para mim. Falei com minha companheira. Ela disse que não sabia de nada. Eu entendi e concordei. Mas aquela informação ficou na minha cabeça. Porque eu tinha certeza de que estavam falando de mim.

Eu ainda não conseguia levantar. Continuei usando a comadre, mas já conseguia sentar na cama e me alimentar. A tarde passou. A noite também. No dia seguinte aceitei a fruta do café da manhã. Eu estava melhor. As vozes tinham desaparecido. Eu não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria… E então…

...continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: O Trauma da Omissão

O relato da Elis expõe a importância do Consentimento Informado.Na saúde mental, a transparência sobre efeitos colaterais é parte do tratamento. A sensação de "ser enganada" gera um trauma que pode dificultar a adesão a tratamentos futuros. Além disso, o desenvolvimento de uma flebite em ambiente de cuidados intensivos, após alertas da paciente, demonstra uma falha na Humanização Hospitalar. O paciente na UTI não perde sua autonomia.

Bibliografia de Apoio:
PNH. HumanizaSUS: Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde.
PESSINI, L. Humanização e Cuidados Paliativos. Loyola, 2004.

Um momento de reflexão

Você já sentiu que sua voz foi silenciada em um momento de dor? O sentimento de abandono deixa marcas que exigem tempo para cicatrizar. Como você lida com a quebra de confiança? Deixe seu comentário e vamos conversar.

Relato Real por: Elis Jurado

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segunda-feira, 30 de março de 2026

Quando a Realidade Se Quebrou: Delírios e Dissociação na UTI

Quando a Realidade Se Quebrou

Sim… tudo desapareceu.

Eu já estava deitada, com o papel e a caneta firmes nas mãos. A medicação ainda não tinha começado, e na minha mente, nada aconteceria além de um sono tranquilo mais tarde. Eu esperava o aviso dos médicos, o toque das enfermeiras, o início de tudo... Estava bem, confiante. Os eletrodos foram conectados e eu acreditava que teria alguém por perto enquanto eu começava a escrever meus primeiros pensamentos. Minha única expectativa era o incômodo da punção na veia para, finalmente, iniciar o processo.

Mas a realidade não esperou. E então… de repente… Eu já não estava mais ali.

Era como se eu tivesse sido arrancada da realidade. Eu tentava voltar. Tentava recuperar os sentidos. Mas quanto mais eu tentava, mais eu parecia ser puxada para longe. Era uma velocidade absurda. Como aqueles brinquedos de parque de diversão que giram para trás, cada vez mais rápido. Eu estava sendo levada. Longe. Para uma realidade assustadora.

Eu via vultos. Muitos vultos. Em alguns momentos parecia que eu estava no espaço. Tudo era escuro, cheio de estrelas, luzes passando em uma velocidade absurda. Eu tentava me mexer… mas não conseguia. Eu tentava entender o que estava acontecendo comigo… mas nada fazia sentido.

Havia muitas luzes.
Muitos sons.
Objetos barulhentos passando por mim. E vozes. Eu ouvia vozes. Às vezes parecia que eu estava voltando para o quarto. Eu me via ali. Mas tudo parecia um desenho animado. As enfermeiras estavam próximas de mim. Eu via elas. Mas não sabia o que estavam fazendo. Eu pedia ajuda. Mas ninguém fazia nada. Elas pareciam personagens de desenho também. E tinham uma risada horrível. Uma risada assustadora. Eu sentia medo. Angústia. Desespero. Eu queria sair daquilo. Mas elas riam.

Eu tentava voltar para a realidade olhando fixamente para alguma coisa do quarto. Às vezes funcionava por alguns segundos. Eu via o biombo. Nele estava escrito UTI 2. Então eu pensava: “Está tudo certo… eu estou no quarto… estou na UTI.” Mas de repente… O biombo virava um monstro. E tudo começava outra vez.

A Fábrica Infinita

Eu era puxada novamente. Voando pelo espaço. Com medo. Com dúvidas. Sem entender nada. Quando parecia que aquilo estava acabando… Tudo se repetia.

Era como se eu estivesse dentro de uma fábrica. Trabalhando em uma linha de produção. Uma produção infinita. Eu montava cabeças de bonecos. Colocava olhos. Mas nunca acabava. As cabeças vinham cada vez mais rápido. Eu queria que desse a hora de ir embora. Mas elas continuavam chegando. Mais rápido. Mais rápido. O vento batia forte. As cabeças vinham voando na minha direção.

Luzes acendiam por todos os lados. Objetos apareciam com formas estranhas. Às vezes pareciam desenhos animados. Às vezes pareciam objetos de massinha em 3D. Nada fazia sentido. Em alguns momentos eu pensava: “Estou delirando.” Mas logo lembrava: A medicação ainda nem tinha começado. A prancheta e a caneta que estavam comigo… Pareciam ter voado para o espaço.

Eu acreditava em realidades estranhas e mentirosas. E ao mesmo tempo sabia que aquilo era um delírio. Eu queria voltar. Voltar para o quarto. Escrever no papel. Esperar a enfermeira puncionar a veia. Eu ainda estava preocupada com a medicação que deveria começar.

E com algo muito simples: Eu estava com fome. Eu queria que aplicassem logo o remédio para que eu pudesse comer depois. Parecia uma lógica normal… dentro de um mundo completamente sem lógica.

Em um momento senti vontade de ir ao banheiro. Pensei que estava levantando. Mas não estava. Eu fiz xixi. E senti como se a urina girasse em cubos, dando voltas. Pensei que estava usando uma fralda. Mas não era. Parecia um recipiente que armazenava urina. Eu não entendia exatamente. Comecei a ficar irritada. Tentava me mexer. Mas não conseguia.

Aos poucos comecei a passar mais tempo na realidade. Mas tudo ainda girava. Eu me sentia péssima. Com medo. Com desespero. Era como se eu estivesse presa dentro do meu corpo… e o meu cérebro estivesse fora da minha cabeça, voando.... Eu via algumas pessoas. Mas não conseguia pedir ajuda. A vóz não saia, as palavras não saíam. Eu via as enfermeiras me olhando, mas não faziam nada, e até riam... Eu sentia muita náusea. Eu não entendia ainda exatamente o que estava acontecendo.

Foi então que…

Continua no próximo capítulo…


O que a ciência diz sobre a Dissociação e o Delírio

A experiência de "não estar mais ali" ou ser "arrancada da realidade" é descrita na psicopatologia como um estado grave de dissociação. Nesses momentos, a integração da consciência, memória e percepção do ambiente é rompida. No contexto hospitalar e do transtorno bipolar, isso pode ser intensificado pelo estresse extremo do ambiente de UTI, resultando em episódios de Delirium.

Diferente do delírio da psicose, o Delirium (estado confusional agudo) causa flutuações na consciência e distorções sensoriais (como ver as enfermeiras como desenhos animados ou sentir o xixi em cubos). O cérebro, sob forte estresse ou desequilíbrio neuroquímico, tenta processar informações mas acaba criando uma realidade fragmentada e surrealista.

Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Artmed, 2014.

Um momento de partilha

Você já sentiu como se a sua mente estivesse desconectada do seu corpo? Às vezes, colocar essas sensações para fora é o primeiro passo para retomar o controle. Deixe seu comentário se você já viveu algo que a lógica não conseguia explicar.

Texto por: Elis Jurado

terça-feira, 24 de março de 2026

Quando tudo desapareceu: O efeito da Ketamina no sofrimento extremo

Quando Tudo Ficou em Silêncio

Depois de 24 horas internada, eu ainda não tinha recebido alta.

Passaram 48 horas… e também não.

Eu estava sendo bem atendida. Monitorada o tempo todo. Os aparelhos não saíam de perto de mim. Em algum momento disseram que houve uma alteração no meu coração, algo no ECG, mas eu estava tão desligada de tudo que nem quis saber detalhes.

Meu corpo parecia uma montanha-russa.

Minha pressão variava de 8 por 5 até 19 por 11.
Recebia glicose o tempo todo.
Reposição de eletrólitos constantemente.

Eu estava ali… mas ao mesmo tempo não estava.

Alguns amigos vieram me visitar. Eu não contei o que tinha acontecido. Apenas disse que estavam investigando uma alteração no coração. Era mais fácil assim.

Fisicamente eu estava estável. Não houve intercorrências graves.
Mas por dentro… o choro não parava.

A equipe do hospital era grande. Além da parte clínica, psicólogos, psiquiatras e até fisioterapeutas passavam para me acompanhar. Eu conseguia fazer quase tudo sozinha, mas não me deixavam levantar sem ajuda.

E isso me incomodava. Eu me sentia mal em chamar a equipe. Parecia que eu estava atrapalhando.

Em alguns momentos eu até me arrependia de ter contado que tinha ingerido lítio. Era estranho admitir isso até para mim mesma. Porque a verdade é que eu queria viver. Mas também não queria estar ali. Era um misto muito confuso de sentimentos.

Eu quase não pegava o celular. Não assistia televisão. O barulho constante dos aparelhos da UTI me deixava ainda mais irritada. Aqueles bipes pareciam ecoar dentro da minha cabeça.

Em um desses dias, a equipe de saúde mental entrou no quarto. Eles falaram sobre um medicamento que estavam utilizando no hospital para alguns pacientes em sofrimento intenso. Um medicamento administrado pela veia, com efeito rápido, que poderia ajudar a aliviar aquela tristeza profunda: a Ketamina (Cetamina).

Disseram que poderia dar náusea ou vômito, mas que administrariam outra medicação para evitar isso. Também falaram que eu poderia dormir. Eu não vi problema. Na verdade… parecia uma chance de sentir algo diferente daquele peso.

Eu não queria sentir aquela tristeza. Nem aquele medo. Nem aquela angústia. Nem aquela sobrecarga emocional. E ao mesmo tempo… eu também não sentia quase nada. Aceitei.

Mais tarde, à noite, o psiquiatra voltou ao quarto. Conversou comigo. Eu precisava ficar três horas em jejum antes da aplicação. Ele fez várias perguntas. Disse que precisava comparar minhas respostas depois da medicação. Pareciam testes psicológicos, perguntas sobre humor, pensamentos, sentimentos.

Eu estava consciente, orientada e tranquila. Pedi para puncionarem outra veia, porque a que estava no braço já estava doendo muito. Levantei, fui ao banheiro sozinha, voltei e me deitei novamente.

Ligaram os aparelhos de monitoramento outra vez. Eu estava com um papel e uma caneta nas mãos. Minha ideia era escrever o que eu sentia. Colocar para fora alguma coisa daquele turbilhão que estava preso dentro de mim.

Talvez escrever ajudasse. Talvez fosse a única forma de explicar o que nem eu mesma conseguia entender.

Mas então…
De repente…
Tudo desapareceu.

Continua no próximo capítulo…


Texto por: Elis Jurado

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terça-feira, 17 de março de 2026

Sobrevivendo à Intoxicação por Lítio: Meu Relato na UTI e o Transtorno Bipolar

Quando eu cheguei ao hospital: intoxicação por lítio, UTI e o silêncio emocional

Cheguei ao hospital acompanhada da minha mãe e da minha esposa. Muita náusea. Vômitos intensos. Diarreia. Tremores. O vômito era tão forte que parecia que meu corpo queria expulsar tudo — como se estivesse tentando sobreviver mesmo quando minha mente já não queria.

Eu tenho diagnóstico de Transtorno Bipolar há pelo menos 7 anos. Faço meu tratamento certinho, tomo as medicações conforme a prescrição, mas a dor, às vezes, é uma onda que atropela até o que é correto. Entrei sozinha na triagem. Ainda não sabia se contaria sobre a ingestão de lítio ou se deixaria quieto. Eu ainda estava dividida entre morrer em silêncio ou aceitar ajuda.

No final, contei. Relatei a ingestão de grande quantidade de lítio, com ideação suicida e um arrependimento confuso — não exatamente por querer viver, mas por não saber mais o que eu queria.

Atendimento imediato e a decisão pela UTI

Fui levada rapidamente para a maca. Já monitorada com ECG, pressão arterial, saturação, frequência cardíaca. O médico entrou em contato com o centro de intoxicação. Coletaram vários tubos de sangue. Iniciaram soro venoso. E então informaram: eu seria transferida para a UTI.

Não foi uma oferta. Foi uma decisão clínica. Eu não queria ir. Na minha cabeça, colocariam soro, diluiriam o lítio e eu iria embora. Eu precisava trabalhar no dia seguinte. Tinha faculdade. Tinha compromissos. Eu ainda tentava agir como se a vida estivesse normal.

Eu havia estudado os efeitos letais do lítio. Mas nunca estudei como se reverte uma intoxicação. Porque minha intenção nunca foi sobreviver.

O que acontece em uma intoxicação por lítio?

O Lítio tem uma margem terapêutica estreita. Mesmo para quem faz o tratamento corretamente há anos, uma ingestão excessiva pode causar alterações eletrolíticas, no ECG, tremores e insuficiência renal. A UTI serve para prevenir complicações graves que surgem horas depois.

O estranho vazio emocional

Me informaram alteração no ECG. Eu não senti medo. Eu estava ali. Sabia onde estava. Sabia o que tinha feito. Mas não sentia quase nada. Vomitei. Tive diarreia. Tive glicemia abaixo de 60. Colocaram glicose na bomba. Monitorização constante. ECG a cada 4 horas. Coleta frequente de sangue.

Eu colaborava. Não dei trabalho. Levantava para ir ao banheiro com ajuda. Quase não comia. Quase não falava. Eu chorava quando a psicóloga vinha. Mas fora isso, era como se eu estivesse anestesiada por dentro.

O arrependimento confuso

Me sentia horrível por ter tentado abandonar minha filha. Me sentia horrível por ter feito minha família sofrer. Me sentia horrível por não aguentar o que parecia “ser o plano de Deus para mim”.

E, ao mesmo tempo, havia um arrependimento estranho por ter buscado socorro. Era como se parte de mim quisesse viver e outra parte achasse que eu tinha falhado até em morrer. Esse é o tipo de pensamento que quase ninguém fala: a culpa por sobreviver.

24 horas depois… e eu não ia embora

Disseram que seriam 24 horas de observação. Depois falaram em 48 horas. Eu seguia estável, mas o cansaço era absoluto. Quando soube que não teria alta, chorei. Eu me conformei, esperando sair no dia seguinte. Eu estava com o celular, mas nada me interessava. Nem redes sociais, nem mensagens. Eu só me sentia pequena. Confusa. Culpada. E vazia.

💬 Vamos conversar?

O "arrependimento confuso" de sobreviver é algo real, pesado e pouco falado. Se você já se sentiu assim ou se esse relato tocou você de alguma forma, não se esconda.

Deixe seu comentário abaixo. Vamos acolher uns aos outros e quebrar esse silêncio.

Continua no próximo capítulo…

Texto por: Elis Jurado

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terça-feira, 10 de março de 2026

Quando a dor grita mais alto que a razão: vozes, lítio e a noite em que eu quis morrer

Quando a dor grita mais alto que a razão

Eu já não estava bem. Chorava fácil. As vozes estavam comigo há quase um mês. Ideias suicidas iam e voltavam. Mas eu não queria aborrecer ninguém. Porque ninguém entende.

Um desentendimento com minha filha, somado a um nível de estresse já alto, foi o gatilho. Não foi “o motivo”. Foi o estopim. Algo tomou conta de mim. Eu me feri com uma faca. Agredi minha filha de leve. Bati minha cabeça contra a parede. Dei socos na parede. Eu encontrei uma força que não parecia minha.

Chorei desesperadamente. E o pior sentimento não era a dor física. Era ter perdido o controle. Pedi perdão à minha filha. Mas dentro de mim já havia uma certeza silenciosa: eu não queria mais viver. Fui contida por familiar. Chorei até adormecer.

No dia seguinte acordei com os olhos inchados. No caminho para o trabalho da minha filha, crises de choro constantes. Voltei para casa tentando me recompor. Eu chorava, mas naquele momento não pensava em morrer. Até saber que minha filha distorceu o que havia acontecido. Eu odeio mentira. Ela mentiu. Inventou coisas.

Aquilo me atravessou como abandono. Vieram raiva, vergonha, culpa, dor. E as vozes. A voz de um homem gritava que nada teria solução. Que eu precisava ir embora deste mundo.

Eu já havia pesquisado sobre a letalidade do Lítio semanas antes. Sabia dos riscos e das sequelas. Mas naquele momento eu não pensava em sequelas. Eu só queria cessar o sofrimento. Eu não queria viver. Ingeri grande quantidade da medicação. Calculei o horário, planejei estar sozinha. Não contei a ninguém.

Cerca de 20 minutos depois, comecei a vomitar. Vômitos constantes, diarreia, mal-estar intenso. E, estranhamente, eu estava em paz. Eu me organizei: escrevi senhas, fiz uma carta de despedida.

Familiar percebeu os vômitos, insistiu para irmos ao hospital. Recusei. Chamaram minha mãe. Quando ela chegou, eu chorei muito. A voz gritava: “Não vá ao hospital”. Mas, em algum lugar dentro de mim, havia algo que queria uma chance. Aceitei ir. Entrei na triagem sozinha e contei apenas para a enfermeira. Ali começava outra história.

(continua...)


🧠 O que a ciência explica

Crises suicidas muitas vezes não são decisões frias e lineares. São estados de desregulação intensa, onde há ativação extrema do sistema de estresse e redução da capacidade racional. Vozes podem surgir em quadros psicóticos ou afetivos e o impulso supera o medo de consequências.

Estudos mostram que muitas tentativas ocorrem em janelas curtas de impulsividade aguda. Sobreviver não significa que não foi grave. Significa que houve intervenção — externa ou interna.

Texto por: Elis Jurado

💬 Se você chegou até aqui...

Se você já esteve à beira de perder o controle, saiba: crises passam. Elas mentem, distorcem e convencem que não há saída. Mas há.

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Você não precisa enfrentar isso sozinho(a). Se sentir que o peso está demais, procure ajuda imediata. Vamos conversar nos comentários?

terça-feira, 3 de março de 2026

Saudade e Bipolaridade: O Luto de Si Mesmo na Saúde Mental

Saudade: Quando a Alma Quer Voltar

Saudade é uma palavra pequena para um sentimento tão grande. É saudade de momentos. De lugares. De pessoas. E, às vezes, de quem a gente foi.

Todo mundo sente saudade. Da infância. De um abraço que não existe mais. De uma fase que passou rápido demais. Mas existe um tipo de saudade que quase ninguém fala: a saudade de quem vive com transtornos de humor. A saudade que acompanha quem é bipolar.

É a saudade dos dias em que a mente estava silenciosa. Dos períodos em que o corpo não doía. Dos momentos em que viver parecia mais simples, mais leve, mais possível. É sentir falta de si mesma. Da versão que sorria sem esforço. Da pessoa que conseguia planejar, sonhar, sustentar rotinas.

A bipolaridade traz ciclos. E, com eles, vem essa saudade estranha: saudade de quando a fase boa estava aqui — mesmo sabendo que ela vai embora. Quando a melancolia chega, a saudade pesa mais. Ela não é só lembrança. Ela é comparação. É olhar para trás e pensar: “eu já fui melhor do que estou agora”. E dói.

Dói porque ninguém vê. Por fora, a vida segue. Por dentro, a alma tenta lembrar como era respirar sem esforço. Talvez a saudade seja isso: a alma tentando voltar para um lugar onde ela se sentiu em paz. Mas a vida não anda para trás. O que podemos fazer é viver o agora — mesmo com saudade, mesmo com dor. Viver do jeito que dá. Um dia de cada vez. Uma fase de cada vez.


O que a ciência diz sobre a Saudade e o "Luto de Si Mesmo"

Na psicologia, o sentimento descrito pela Elis é muitas vezes comparado ao "luto funcional" ou ao luto pela identidade prévia ao diagnóstico ou à crise. No Transtorno Bipolar, as oscilações de humor (ciclos) criam uma fragmentação da percepção do "eu". Quando a pessoa está em depressão, a memória da fase estável ou da hipomania gera uma comparação dolorosa, onde o presente parece sempre insuficiente em relação ao passado.

Aceitar que a vida não é linear e que os ciclos fazem parte da patologia é um dos maiores desafios terapêuticos. A saudade, nesse contexto, pode ser ressignificada não como uma vontade de voltar, mas como um registro de que a paz é possível e de que, embora as fases mudem, a essência do ser permanece atravessando cada uma delas.

Bibliografia de Apoio:
KAY REDFIELD JAMISON. Uma Mente Inquieta: Memórias de Loucura e Humores. Martins Fontes, 2002.
APA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Artmed, 2014.

💬 Se esse texto tocou você

Talvez você também sinta essa saudade silenciosa. De momentos em que a mente descansava. Ou de quem você foi antes da dor se tornar rotina. Se quiser, escreva aqui embaixo. Conte do que você sente saudade. Às vezes, dividir o peso faz a saudade doer um pouco menos.

Elis — sentindo, escrevendo, sobrevivendo.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Embotamento Afetivo e Resiliência: O Que Significa "Dormir Dentro de Si"

Houve um tempo em que eu fiquei dormindo dentro de mim

Levei tempo demais ali, adormecida por dentro. Não sentia quase nada. Talvez não fosse vazio — talvez fosse cansaço. Cansaço de aguentar, de insistir, de sobreviver em silêncio.

Existe um nó que mora no meu peito. Às vezes ele sobe, aperta a garganta, rouba o ar. Não é drama. É o corpo lembrando de tudo o que a boca não conseguiu dizer.

Mesmo assim, ainda existem mãos que me chamam de volta. Mãos de esperança. Mãos que ficam quando eu mesma desisto de mim. São elas que, vez ou outra, me devolvem a fé que pensei ter perdido.

Aprendi cedo que o mundo tenta nos convencer a ir embora. A soltar o que é nosso. A abandonar a raiz. Mas também aprendi que ir embora demais é deixar espaço para quem nunca cuidou.

Tem dias em que as forças acabam. Eles te cansam de propósito. Te tiram o fôlego para que você não reaja. Reescrevem sua história, escondem os livros, na tentativa de te fazer esquecer quem você foi.

Mas eu lembro. Lembro que já fui livre. Que já voei alto. Que já acreditei em finais bons. Hoje, às vezes, me sinto enjaulada. Com as asas machucadas. Vivendo de migalhas emocionais. Mas ainda assim, sigo.

Sigo porque foi isso que me ensinaram em casa: continuar. Cuidar da raiz, mesmo quando o chão está seco. Viver, mesmo quando viver dói. Talvez eu não escreva finais perfeitos. Mas escrevo finais possíveis. Finais que honram quem eu sou e a terra emocional de onde eu vim.


O que a ciência diz sobre o Embotamento e a Resiliência

O estado de "dormir dentro de si" descrito pela Elis é conhecido na psicopatologia como embotamento afetivo ou anestesia emocional. Comum em quadros de depressão maior ou episódios mistos do transtorno bipolar, é uma defesa do organismo contra uma dor que se tornou insuportável.

A "raiz" mencionada no texto simboliza a resiliência — a capacidade do ego de manter sua estrutura básica mesmo sob pressões extremas. Buscar mãos que "chamam de volta" e valorizar a própria história são passos terapêuticos fundamentais para o processo de despertar emocional e recuperação da autonomia.

Bibliografia de Apoio:
CYRULNIK, B. Resiliência: Essa Inaudita Capacidade de Lutar contra a Adversidade. Instituto Piaget, 2004.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.

Reflexão:
Nem sempre estar parado é desistir. Às vezes, é só o tempo que a alma precisa para acordar.

💭 E você?

Em que parte do caminho você sente que adormeceu?
E o que ainda te faz querer ficar?

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Às vezes, ser visto já é um recomeço.

Se o cansaço emocional estiver pesado demais, procure ajuda profissional.
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