terça-feira, 12 de maio de 2026

A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta

Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e também para me dar alta. Foi então que a porta do quarto abriu novamente.

Entrou outro psiquiatra. Ele se apresentou — era um médico que ainda não tinha ido me ver antes. Parecia ser alguém com mais autoridade na equipe, talvez um chefe. Mas se apresentou de forma muito respeitosa. Disse que soube do que havia acontecido e que entendia a minha insatisfação e a quebra de confiança.

Depois começou a explicar com calma sobre a clínica psiquiátrica: como era o funcionamento, o tipo de tratamento, a rotina. Ele também reconheceu que os colegas não haviam conduzido a situação da melhor forma. Disse claramente que deveriam ter conversado comigo antes, explicado, orientado e perguntado se eu aceitava.

Falamos também sobre a administração da cetamina. Expliquei que não tinha recebido as orientações necessárias. Ele concordou que o ideal teria sido uma abordagem diferente, inclusive com um termo de consentimento. Comentou que a cetamina costuma ser utilizada em pacientes com quadros muito graves, o que não era exatamente a minha situação.

Foi uma conversa boa. Pela primeira vez senti que alguém estava realmente escutando. Ele demonstrou uma visão mais ampla e muito respeito. Eu estava bem calma naquele momento. Expliquei para ele que compreendia a questão da internação, mas que o problema principal tinha sido a forma como tudo aconteceu. A sensação que tive foi de que a equipe estava tramando algo contra mim.

Também comentei que muitos profissionais mais jovens precisam ser melhor preparados para respeitar o indivíduo, para dialogar e para seguir os protocolos legais e éticos. A impressão que tive foi que muitos estavam motivados pela oportunidade de aplicar uma medicação que não usam com frequência, talvez para observar resultados, aprender mais… Todos concordaram. Só não conversaram comigo.

Depois dessa conversa, ele decidiu me dar alta, como já havia combinado e até gravado no dia anterior. 

O médico clínico passou no quarto, avaliou o braço, prescreveu antibiótico por causa da flebite e, finalmente, recebi alta. Saí do hospital com três flebites, os braços cheios de hematomas, muita indignação e também muita tristeza com a forma como a saúde mental ainda é conduzida.

Isso me impacta ainda mais porque estou estudando para me tornar psicóloga. Saber que, no futuro, terei que conviver e trabalhar ao lado de profissionais que agem dessa forma é algo difícil de aceitar.

Voltei para casa. Queria ficar em silêncio. Minha filha comentou que talvez tivesse sido melhor eu ter ficado internada. Sei que ela não falou por maldade, mas aquilo me deixou muito triste. Porque, se fosse ela no meu lugar, eu iria querer que estivesse perto de mim. Nos próximos textos vou contar como foram os dias em casa.

(continua…)


O Olhar da Psicologia: 

A Escuta Ativa como Reparação

O relato da Elis expõe como a falha ética e a quebra de protocolos podem causar danos psicológicos profundos (iatrogenia). A conversa com o psiquiatra chefe foi um ato de reparação clínica e ética. 

Ao escutar a paciente, validar a sua indignação e reconhecer o erro da equipe, o médico restaurou a dignidade de Elis, permitindo que ela saísse do hospital não como um "corpo respirando", mas como um sujeito de direitos.

Este caso reforça que a Humanização na saúde não é um favor, é uma obrigação legal. 

A aliança terapêutica — a confiança entre paciente e equipe — é o fator de cura mais importante. Sem diálogo e consentimento, o tratamento se torna uma imposição que fere e traumatiza.

Bibliografia de Apoio:
Código de Ética Profissional dos Psicólogos.
Lei nº 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica).

💬 A escuta é o primeiro passo para o cuidado verdadeiro.

Você já passou por uma situação onde sentiu que o seu "consentimento" foi ignorado em um tratamento de saúde? Ou, ao contrário, já teve a experiência de ser realmente ouvido por um profissional, e como isso mudou a sua percepção de cura? Sua história é muito importante. Compartilhe sua experiência nos comentários.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

A Quebra de Confiança: Quando o Hospital Decide por Você

A Quebra de Confiança e a Luta pela Autonomia

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. Conversávamos tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse: — Saiu a vaga.

Eu olhei espantada, tentando entender, afinal, eu não estava esperando vaga nenhuma. Ele continuou: — Sim, saiu a sua vaga para a clínica psiquiátrica. Logo em seguida entrou o restante da equipe, junto com a psicóloga, e disseram: — Amanhã cedinho a ambulância vai levar você.

Minha prima não entendeu nada. Eu pedi que ela saísse, porque precisava conversar com a equipe. Ela achava apenas que eu estava internada por alguma alteração cardíaca, e eu não queria contar a verdade. Assim que ela saiu, eu fiquei muito brava. Comecei a questionar: — Que vaga? Eu não vou para clínica nenhuma. Quem pediu essa vaga?

Ilustração artística de uma paciente feminina (Elis Jurado) sentada e consciente em um leito de UTI. Ela está conversando calmamente com dois médicos da equipe de psiquiatria, que estão em pé ao lado da cama segurando pranchetas. A expressão da paciente é serena, e o detalhe da flebite (inflamação na veia) é visível em seu braço. O ambiente hospitalar é visível, com monitores e suportes de soro, e uma janela ao fundo mostra uma cidade ao anoitecer. A cena transmite o diálogo e a avaliação psiquiátrica descritos por Elis Jurado.
A equipe insistiu que eu precisava ficar 15 dias lá. Aquilo me irritou ainda mais. Eu respondi que tinha uma vida fora dali, precisava trabalhar, estava perdendo aulas, e que eu não aceitava ir. Ninguém havia sequer me perguntado. Comecei a arrancar o aparelho de pressão, dizendo que iria embora, que pediria alta a pedido. A confiança tinha sido totalmente quebrada.

Chamaram minha companheira, que trabalha no mesmo hospital. Ela pareceu receosa de contrariar os médicos e disse que talvez fosse melhor eu ir. Aquilo foi mais uma quebra de confiança para mim. Eu disse que entraria com processo, que eu não poderia ser obrigada. Eu estava fragilizada, mas consciente, orientada e com minhas capacidades cognitivas preservadas. Liguei para uma advogada na frente deles.

É muito difícil presenciar uma equipe inteira tomando decisões sem comunicação. Comecei a gravar tudo. A psicóloga disse que eu poderia responder judicialmente se não apagasse. Eu disse que não tinha problema, mas que não confiava mais neles. Deixei claro: — Eu tenho um transtorno, mas não sou louca. Eu sei muito bem o que posso e o que não posso aceitar.

A partir das 16 horas, decidi que não aceitaria mais alimentação nem nada que me oferecessem. Tinha medo de que colocassem algum medicamento para me sedar e me internar à força. A noite foi muito longa. Eu não consegui dormir, com medo. Finalmente amanheceu. Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… ela estava bem vermelha e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e me dar alta. Foi então que a porta abriu novamente. Entrou outro psiquiatra e…

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia:

Ética e Consentimento

O relato da Elis expõe uma falha crítica na Aliança Terapêutica. Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo e a Lei Paulo Delgado (Reforma Psiquiátrica), a internação deve ser o último recurso e o paciente tem o direito de ser informado e participar das decisões sobre seu tratamento. O anúncio de uma transferência na frente de visitas e a falta de diálogo prévio configuram uma violação da privacidade e da dignidade do sujeito.

A resistência da Elis, baseada em seu conhecimento legal, demonstra que o diagnóstico de um transtorno mental não retira do indivíduo sua cidadania ou sua capacidade de discernimento sobre sua própria vida. O medo da sedação forçada relatado é um reflexo do trauma causado por práticas hospitalares impositivas.

Bibliografia de Apoio:
Lei nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica).
Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

💬 "Eu tenho um transtorno, mas não sou louca."

Você já sentiu que sua voz foi ignorada por causa de um diagnóstico? A luta pela autonomia na saúde mental é um desafio diário. Como você lida quando sente que sua vontade não está sendo respeitada? Deixe seu comentário e vamos fortalecer essa rede de apoio.

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terça-feira, 5 de maio de 2026

Relato UTI: A Falsa Esperança da Alta e o Surgimento da Vaga

A Chegada ao Hospital: Entre a Recusa e a UTI

Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém. Chegando ao hospital, entrei para a triagem quase imediatamente, porque perceberam que eu realmente não estava bem.

Na triagem, acredito que meus sinais vitais ainda estavam bons, mas perguntaram o que tinha acontecido. Foi então que eu disse que havia tomado uma cartela de lítio de liberação prolongada, aproximadamente três horas antes. Eu ainda estava consciente e orientada, mas com muitos vômitos, diarreia e aumento da diurese.

A enfermeira perguntou quantos comprimidos eu havia tomado. Eu não soube responder. Só lembrava que tinha sido uma cartela inteira. Ela me levou diretamente para a sala de observação. Minha mãe e minha companheira ficaram do lado de fora.

Ilustração de uma paciente em um ambiente hospitalar, sentada em uma maca de triagem, cercada por equipamentos médicos e monitores. A cena transmite a sensação de apatia e dissociação descrita por Elis Jurado no momento da internação.

Lá dentro me perguntaram novamente a quantidade exata, e eu repeti: — Uma cartela. Era tudo o que eu lembrava. E, na verdade, eu não estava disposta a pensar muito sobre aquilo. Eu estava ali… mas ao mesmo tempo parecia que eu não estava. Eu não sentia medo. Não sentia nada. As vozes ainda diziam que eu não deveria dar muitas informações, que era melhor ficar em silêncio.

Rapidamente começaram os procedimentos. Me colocaram em monitores. Fizeram punção venosa. Realizaram eletrocardiograma. Não demorou muito e minha companheira entrou dizendo que iriam me transferir para a UTI. Eu fiquei brava. Porque eu só tinha aceitado passar pelo pronto-socorro. Na minha cabeça aquilo parecia exagero. Eu sabia o que tinha feito… mas naquele momento parecia que eu não tinha dimensão real da gravidade.

Os médicos disseram que estavam em contato com o Centro de Intoxicação Exógena. Eu estava ali como se fosse apenas um corpo respirando. Mas sem sentir nada. Contei tudo isso ao psiquiatra e também à psicóloga. Eles perguntaram se eu ainda tinha ideias de concretizar o autoextermínio. Eu disse que não. Expliquei que a quetiapina ajudaria a parar as vozes.

Também contei a verdade sobre o revólver calibre .22. Expliquei que ele ainda não estava em minhas mãos, porque como eu não tinha conseguido encontrar a munição, eu nem tinha ido retirar a arma. O psiquiatra disse que, provavelmente, eu receberia alta. Fiquei contente. Afinal, já eram seis dias na UTI. Depois a equipe da clínica médica entrou e disse que ainda precisariam repor potássio. Entendi que a alta não viria naquele dia. Não gostei. Mas também não resisti.

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. A gente conversava tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse:

— Saiu a vaga.

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: Intoxicação e o "Corpo Respirando"

Esse relato ilustra o que chamamos de distanciamento afetivo em crises graves. Mesmo diante de procedimentos invasivos e da transferência para uma UTI, a paciente relata uma ausência de medo ou dimensão da gravidade. Clinicamente, a intoxicação por lítio pode causar confusão mental e lentificação, mas aqui notamos também uma defesa psicológica: a mente se "desliga" para suportar a dor emocional.

A cooperação com a equipe, embora relutante, e a honestidade sobre os planos anteriores (como a arma e a medicação) são sinais de que o vínculo terapêutico começou a ser reestabelecido, permitindo que a equipe médica e o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) pudessem agir com segurança.

Bibliografia de Apoio:
KAPLAN, H. I. Compêndio de Psiquiatria. Artmed.
Conselho Federal de Psicologia. Atendimento em Crise e Urgência.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

💬 A jornada da recuperação não é linear.

Você já se sentiu como um "corpo respirando", apenas observando a vida acontecer sem conseguir sentir nada? Às vezes, o primeiro passo para a cura é aceitar que precisamos de ajuda, mesmo quando não entendemos a gravidade da situação. Deixe seu comentário abaixo: sua história também merece ser ouvida.

terça-feira, 28 de abril de 2026

O Ápice da Crise: O Plano, as Vozes e o Medo de Traumatizar quem Amo

A Armadilha do Silêncio e o Peso da Decisão

Voltei para casa. Liguei o computador. Comecei a fazer algumas coisas do trabalho. Mas as vozes não paravam. Elas diziam: — Termine logo o trabalho e acabe de vez com esse sofrimento. — Nada vai adiantar. — Você sempre vai ficar um tempo bem… e depois vai ficar mal de novo. — Você é uma péssima mãe. — Uma péssima esposa.

Diziam que não adiantava continuar vivendo daquele jeito. Que eu só estava sofrendo e atrapalhando a vida das outras pessoas. Que ninguém me entendia… e que nunca iriam entender, porque ninguém sentia aquilo que eu sentia. Então elas insistiam: — Vai logo. — Escreve um bilhete. — Acaba logo com isso.

Ilustração de uma mulher em frente ao computador em um ambiente escuro, com sombras fragmentadas ao redor que representam pensamentos intrusivos e o isolamento emocional. A cena transmite o conflito interno e a gravidade do momento descrito no relato de Elis Jurado sobre a crise de saúde mental

Disseram que havia uma cartela de lítio. Que bastava eu tomar. Que depois eu poderia ficar quieta. Que à noite, quando o lítio já estivesse acumulado no sangue, eu estaria sozinha em casa. Que eu passaria mal pela última vez. Que iria convulsionar… e morrer. Elas continuavam: — Você nem conseguiu encontrar a munição. — Aproveita. É agora.

Diziam que todo mundo ficaria melhor sem mim. Que iam chorar por alguns dias… mas depois tudo voltaria ao normal. Diziam que minha filha viveria muito bem. Que eu nunca mais cobraria nada dela. Que minha companheira poderia fazer mais coisas que gosta, porque não teria mais que lidar comigo. Que a dificuldade financeira acabaria. Que minha irmã nunca mais precisaria se preocupar comigo.

E então diziam: Olha as pessoas. Eu via. Eu via todos sorrindo. Como se estivessem esperando por aquilo. Como se aquilo fosse o melhor desfecho possível. E aquilo parecia real. Muito real. Não parecia mentira. Parecia verdade absoluta. Foi então que abri a gaveta. Sem pensar em qualquer outra consequência. Com a certeza de que, até 22 horas, tudo estaria terminado. Tirei todos os comprimidos da cartela. E tomei.

As vozes me elogiaram. Disseram que eu tinha conseguido. E naquele momento eu senti algo estranho: Eu me senti bem. Até feliz. Eu acreditava que estava dando às pessoas descanso. Que estava oferecendo a todos uma vida melhor. Voltei para o computador. Terminei as coisas do trabalho.

Em alguns momentos as vozes mandavam eu pegar o carro e sair dirigindo, mas antes de meia hora comecei a passar muito mal. Veio uma dor forte no estômago. Depois náusea. E vômitos. Minha companheira percebeu. Viu que eu estava vomitando e que eu não tinha ido trabalhar. Eu apenas disse que estava passando mal. Como ela precisava sair, chamou minha mãe para ficar comigo sem que eu soubesse. Eu não contei nada.

Logo minha mãe chegou. Ela queria que eu fosse ao hospital, porque eu estava vomitando muito. Eu não aceitei. Mas comecei a piorar. Muito. E quando entendi que minha mãe ficaria ali comigo, minha mente entrou em paranoia. As vozes voltaram com força: — Você vai convulsionar e morrer na frente da sua mãe. — Manda ela ir embora. — Você tem que estar sozinha.

Diziam que aquilo ia traumatizá-la. Que ela acabou de sair de uma cirurgia cardíaca. Você é má. — Você é um monstro. — Nem para morrer você consegue fazer direito. — Sua mãe não pode te ver morrer. 

Eu chorei muito. Acabei desabafando com minha mãe alguns conflitos, mas, na verdade, eu só queria proteger minha mãe. Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém.

Chegando ao hospital… continua no próximo capítulo.


O Olhar da Psicologia: O Alívio Perigoso e a Distorção de Afeto

O relato da Elis descreve um fenômeno clínico alarmante: o alívio ou felicidade após a decisão do autoextermínio. Para a mente em sofrimento extremo, a decisão final aparece como uma "solução" para o conflito, o que gera uma falsa sensação de paz. Esse é um dos sinais de maior risco, pois a pessoa para de lutar contra a ideia e passa a executá-la com serenidade.

As vozes que dizem que "todos ficariam melhor sem ela" são expressões da auto invalidação extrema, comum em episódios depressivos do Transtorno Bipolar. A paranoia final sobre traumatizar a mãe revela que, mesmo no ápice da crise, o vínculo afetivo permanece, sendo muitas vezes o último fio que conecta o sujeito à busca por ajuda hospitalar.

Bibliografia de Apoio:
SHNEIDMAN, E. S. The Suicidal Mind. Oxford University Press.
BERTOLOTE, J. M. O Suicídio e sua Prevenção. Ed. UNESP.


💬 Este é um relato de muita dor... 

Mas também de sobrevivência. Você já sentiu que sua mente tentou te convencer de algo que não era real? Se sentir vontade, compartilhe como você lida com seus dias mais difíceis aqui nos comentários. Vamos nos apoiar 

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ideação Suicida e Bipolaridade: O perigo do silêncio e o medo do amanhã.

O Medo do "Depois" e o Silêncio das Vozes

As vozes tinham desaparecido. Eu já não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava apenas aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria. Perguntaram como eu estava.

Eu respondi que estava bem — ou pelo menos melhor — mas que ainda sentia meus pensamentos um pouco desorganizados. Disse também que já não sentia aquela vontade constante de chorar e que acreditava que em breve receberia alta médica. O psiquiatra permaneceu um tempo comigo. Ele começou a fazer perguntas sobre coisas mais antigas. Perguntou o que havia me levado a usar o lítio em excesso, já que fazia menos de dois meses da minha última consulta psiquiátrica, e naquela consulta eu havia dito que estava bem.

Ilustração artística em tons de azul e roxo de uma paciente feminina sentada e consciente em um leito de UTI. Ela está conversando calmamente com dois médicos da equipe de psiquiatria, que estão em pé ao lado da cama segurando pranchetas. A expressão da paciente é serena, refletindo a melhora dos sintomas agudos. O ambiente hospitalar é visível, com monitores e suportes de soro, e uma janela ao fundo mostra uma cidade ao anoitecer.

Eu expliquei...

Naquela consulta eu estava realmente bem.

Disse a ele que convivo com o diagnóstico de transtorno bipolar há muitos anos, e que, com o tempo, aprendi a perceber quando algo dentro de mim começa a mudar, quando sinto que as coisas podem não caminhar bem.

Mas, naquela ocasião, eu estava bem de verdade.

Esse “estar bem” sempre me traz alegria, mas também me deixa em alerta. Porque, muitas vezes, depois de um período de estabilidade, acaba vindo a depressão.

Mesmo assim, naquele momento estava tudo tranquilo. Eu realmente me sentia bem. A única coisa que me incomodava era uma dificuldade de concentração, que estava me prejudicando na faculdade.

E foi exatamente isso que eu disse naquela consulta:

Eu estou bem… mas tenho medo do depois, pois já faz um tempinho que estou bem.

E o depois veio. Veio com crises intensas de choro, com ansiedade, com falta de esperança, com medo. Ao mesmo tempo surgiram vários gatilhos externos. Situações que não dependiam de mim, que eu não conseguia controlar nem evitar. Tudo começou a se acumular. E foi piorando. Como existiam motivos concretos para eu estar triste, eu não me preocupei tanto no começo. Pensei que fosse uma reação aos acontecimentos. Algo compreensível.

Pensei em ir ao pronto-socorro várias vezes. Mas sempre dizia para mim mesma que ia passar. Que era só uma fase difícil. Que os gatilhos estavam muito evidentes. Só que, aos poucos, minha mente começou a mudar de um jeito assustador. Quase todos os dias eu comecei a me preparar para morrer. Foi nesse momento que as vozes apareceram.

Elas diziam coisas como:

  • Que eu nunca sairia daquela situação.
  • Que felicidade não existia para mim.
  • Que eu era um peso na vida das pessoas.
  • Que ninguém gostava de mim de verdade.

E o mais assustador… é que parecia real. Tão real que, em algum momento, eu concordei com elas. Com medo de tentar algo e dar errado, comecei a pesquisar formas de garantir que tudo acontecesse “perfeitamente”. Foi então que percebi que tinha uma arma poderosa nas mãos: o lítio. Mas também deixei essa ideia de lado por um tempo. Eu tinha medo de que não funcionasse e eu acabasse sobrevivendo com sequelas.

Então comecei a procurar outra forma. Fui atrás de um revólver. Assim eu imaginava que estaria tudo pronto quando chegasse a hora certa. Consegui, com dificuldade, encontrar um calibre .22. Cheguei até a tentar me matricular em um curso para porte de arma, tentando seguir um caminho “legal”, mas não consegui. Mesmo assim falei para o rapaz reservar o calibre .22 para mim. Só havia um problema: ele não tinha munição.

É curioso como a mente pode entrar num lugar tão estranho… eu tinha medo de alguém pegar aquilo e eu acabar presa. O rapaz disse que não conseguiria a munição. Mesmo assim continuei procurando. Sem muita pressa. Como se aquilo fosse apenas uma possibilidade guardada para o futuro. Até que chegou o dia 08/02/2026. Nesse dia aconteceram problemas em casa. Outro gatilho foi disparado.

Consegui me manter relativamente bem naquele dia, mas no dia seguinte eu acordei com o rosto inchado de tanto chorar. As crises de choro voltaram muito fortes. Mesmo assim saí para trabalhar. Levei minha filha até o ponto e logo eu comecei a chorar... 

E foi ali que as vozes voltaram com força. Elas mandaram eu voltar para casa. Disseram para eu avisar no trabalho que entraria mais tarde. Eu obedeci. Voltei para casa. Liguei o computador. Comecei a fazer algumas coisas do trabalho...

Mas…

Continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: A Ideação Estruturada

O relato da Elis descreve com precisão o fenômeno da ideação suicida estruturada. Diferente de um impulso momentâneo, aqui a mente busca meios, métodos e justificativas lógicas (gatilhos externos) para validar o sofrimento. As "vozes" mencionadas podem ser interpretadas clinicamente como pensamentos intrusivos de caráter depressivo grave, que distorcem a percepção da realidade e do valor próprio.

A ambivalência — o desejo de morrer em conflito com o medo de sobreviver com sequelas ou de ter problemas legais — é uma característica comum. Reconhecer esses sinais precocemente, como a Elis tentou fazer na consulta anterior, é o ponto crucial para a intervenção em crises de saúde mental.

Bibliografia de Apoio:
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed.
OMS. Prevenção do Suicídio: Um Manual para Conselheiros.


💬 E você? Já sentiu que o "estar bem" de hoje escondia um medo profundo do que viria a seguir? Já precisou de coragem para nomear e enfrentar seus próprios gatilhos? Compartilhe sua experiência nos comentários. Sua história pode ser a luz que alguém precisa encontrar. 

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. CVV – 188 (24h, gratuito).

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vulnerabilidade na UTI: O impacto da omissão e do cuidado impessoal

O Despertar Traumático e o Sentimento de Omissão

A madrugada foi passando lentamente. O dia começou a amanhecer. Em algum momento consegui cochilar um pouco. E quando acordei… estava acontecendo a troca de plantão.

Eu ainda estava em crise de choro. Tudo parecia rodar. Minha fala saía difícil, enrolada. Eu não conseguia levantar. Meu corpo parecia pesado, estranho… e eu estava muito molhada.

Ilustração de uma paciente em leito de UTI, expressando vulnerabilidade e angústia. O ambiente é frio, com monitores ao fundo, simbolizando o despertar traumático e a perda de autonomia descrita por Elis Jurado após o uso de Ketamina.

Logo depois da troca de plantão, a enfermeira veio se apresentar. Eu disse a ela que estava molhada e também falei o quanto estava triste e irada por estar naquela situação que eu não escolhi viver. Ela foi me trocar.

Eu estava muito molhada mesmo. Fiz muito xixi — um dos efeitos da intoxicação pelo lítio. Além disso, eu estava recebendo glicose e eletrólitos em bomba de infusão, o que aumenta muito a produção de urina. Ela me deu um banho de leito. Naquele momento aconteceu algo estranho dentro de mim: ao mesmo tempo em que eu me sentia cuidada, eu também me sentia mal.

Mal porque eu não precisava estar naquela situação. Mal porque eu sentia vergonha. Eu quase não conseguia ajudar. Meus braços e pernas até se mexiam um pouco, mas estavam pesados, lentos, como se não fossem meus. Ela trocou o lençol, colocou outra camisola. Fez tudo o que podia fazer naquele momento, porque eu ainda estava muito sob efeito da medicação e não conseguia levantar. Colocou fralda novamente. E isso é horrível. Porque a fralda vaza, o xixi passa… e logo eu estaria molhada de novo.

Minha companheira chegou. Quando a vi, consegui me acalmar um pouco. Mas meu corpo parecia travado. Era uma sensação assustadora: minha mente mandava eu levantar o braço, olhar para o lado… e meus membros não obedeciam.

Não demorou muito e o psiquiatra chegou. Ele chegou feliz. Parecia imaginar que eu teria gostado da experiência e que estaria bem. Ele provavelmente esperava me encontrar animada, talvez até agradecida. Mas me encontrou naquela situação. Perguntou como eu estava. Eu disse que estava mal. E que sentia muita raiva e muita tristeza ao mesmo tempo.

Ele respondeu que a maioria das pessoas não passam pelos efeitos que aconteceram comigo. Disse que muitos pacientes gostam da experiência, e por isso ele tinha certeza de que me encontraria bem e até querendo fazer outra dose em três dias. Ele me perguntou o que eu estava sentindo. Perguntou o que eu tinha vontade de fazer. Eu respondi com toda a honestidade que cabia naquele momento:

"Se eu conseguisse levantar, eu iria embora dali… e eu estava com tanta raiva que eu 'mataria ele'."

Não era um plano. Era desespero e indignação falando. Eu disse a ele que me senti enganada. Porque ele me falou da parte boa, de como aquilo poderia ajudar… mas não me falou da parte ruim. Não explicou que efeitos colaterais assim poderiam acontecer, mesmo que não aconteçam com todo mundo. E se um medicamento pode provocar algo assim, eu tinha o direito de saber.

Também disse que nem me avisaram quando começaram a passar a cetamina. Usaram a mesma veia que já estava ruim, aquela que eu tinha avisado que doía e que precisava trocar. E ninguém ficou comigo. Eu voltei à realidade sozinha. Com medo. Com angústia. Assustada. Com vergonha. Presa. Molhada. Suja. Sem conseguir me mexer. Sem ninguém ali para conversar comigo. Eu estava confusa, sem entender o que tinha acontecido. Disse a ele que estava muito triste mesmo. Ele ouviu… e saiu. Mas o sentimento de ter sido enganada pela omissão das informações foi muito grande. Tão grande que eu ainda sinto isso hoje.

Minha companheira ficou comigo. Consegui tomar café da manhã. Eu estava com muita fome. Ainda não conseguia forças para levantar, então para não ficar molhada eu pedia a comadre toda hora para fazer xixi. É muito ruim. Perguntei para uma paciente que estava lá por que tinham me amarrado. Ela disse que não entendeu também. Disse que foi falar com o médico para alguém ir me ver, e que ele foi grosseiro com ela.

Passei muito tempo tentando entender o que tinha acontecido. As enfermeiras daquele plantão me disseram que essa cetamina geralmente é usada em pacientes que estão sedados ou entubados. Acho que, por causa da grande carga de estresse que eu estava vivendo, foi prescrito clonazepam e quetiapina — medicações que eu já tinha pedido dias antes, porque estava ouvindo algumas vozes intrusivas.

O resultado foi um dia inteiro sem conseguir levantar da cama. Passei a maior parte do tempo dormindo. Mas quando acordava, vinha uma ansiedade enorme. Às vezes eu chorava. Eu me sentia perdida. A veia? aquela mesma que eu tinha dito que estava doendo… Não trocaram. Administraram a medicação na mesma veia. Comecei a sentir muita dor. Quando foram ver, eu estava desenvolvendo uma flebite. Foi só então que trocaram o acesso. Fiquei triste também por isso. Porque eu estava na UTI. E ter flebite já não é bom em lugar nenhum… mas na UTI, onde são cuidados intensivos, é ainda mais complicado.

Em uma passagem de plantão eu ouvi algo. Disseram que meus eletrólitos estavam quase normalizados, que meus batimentos cardíacos já estavam normais e que eu estava aguardando vaga na clínica psiquiátrica. Mas eu apenas ouvi. Ninguém falou isso diretamente para mim. Falei com minha companheira. Ela disse que não sabia de nada. Eu entendi e concordei. Mas aquela informação ficou na minha cabeça. Porque eu tinha certeza de que estavam falando de mim.

Eu ainda não conseguia levantar. Continuei usando a comadre, mas já conseguia sentar na cama e me alimentar. A tarde passou. A noite também. No dia seguinte aceitei a fruta do café da manhã. Eu estava melhor. As vozes tinham desaparecido. Eu não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria… E então…

Continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: O Trauma da Omissão

O relato da Elis expõe a importância do Consentimento Informado. Na saúde mental, a transparência sobre efeitos colaterais (como a dissociação ou a perda de controle motor) é parte do tratamento. A sensação de "ser enganada" gera um trauma que pode dificultar a adesão a tratamentos futuros.

Além disso, o desenvolvimento de uma flebite em ambiente de cuidados intensivos, após alertas da paciente, demonstra uma falha na Humanização Hospitalar. O paciente na UTI não perde sua autonomia; ele continua sendo o sujeito de sua própria história.

Bibliografia de Apoio:
PNH. HumanizaSUS: Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde.
FOUCAULT, M. O Nascimento da Clínica. Ed. Forense.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, converse com alguém. CVV – 188 (24h).

terça-feira, 7 de abril de 2026

Relato Real: Minha experiência traumática com Ketamina na UTI

Quando a Realidade Se Quebrou

Foi então que… devido a muitas náuseas comecei a vomitar. Eu não conseguia me mexer. Não entendia por quê. Mal conseguia virar a cabeça para vomitar. O vômito veio em jatos. Caiu na cama. Caiu em mim. E eu ali… sem conseguir me mexer, sem entender o que estava acontecendo.

Foi nesse momento que fiquei ainda mais confusa. Eu não sabia se haviam feito a medicação (Cetamina) ou não, porque não me lembrava de ninguém ter me avisado. E também porque tinham dito que dariam um medicamento para eu não vomitar… Mas eu estava vomitando. Vomitei três vezes seguidas.

Mesmo confusa, lembro muito bem de uma coisa: A enfermeira estava olhando. Ela não me ajudou. Não virou minha cabeça para o lado. Não me limpou. Não limpou o chão. Elas apenas ficavam me olhando de longe.

Eu estava muito agitada. Os pensamentos corriam a milhão. E eu estava profundamente triste, porque estava vivendo tudo aquilo sem entender o que estava acontecendo comigo. Passou algum tempo. Foi então que percebi que estava amarrada ao leito. Por isso eu não conseguia me mexer. Mas ninguém tinha me dito que fariam aquilo.

Foi nesse momento que comecei a entender que já tinham administrado a droga… (a ketamina) E eu não sabia. A paciente que estava no mesmo quarto que eu foi ao banheiro e me viu toda suja de vômito. Ela chamou a enfermeira, que estava na porta apenas olhando. Então a enfermeira veio até mim e passou um papel na minha boca para limpar um pouco.

Eu pedi para ela me desamarrar. Ela soltou meus braços… E saiu. Tentei mexer as pernas. Não consegui. Foi então que compreendi que minhas pernas também estavam presas. Eu estava suja. Presa. Molhada. Com muito medo. Assustada. Ninguém veio conversar comigo.

O psiquiatra havia dito que a equipe ficaria observando e acompanhando. Mas eu estava sozinha. Fui entendendo aos poucos que talvez não tivessem me contado tudo… Porque eu provavelmente não aceitaria. E de fato… Se tivessem me explicado o que aquela droga poderia causar, eu realmente não teria aceitado.

Comecei a perceber que tinham iniciado a administração sem me avisar. E ainda utilizaram a mesma veia que já estava com problemas. Ligaram o medicamento… E eu nem percebi. Foi por isso que comecei a entrar em delírios. Por isso eu não me lembrava. Também percebi que estava de fraldas.

Cada minuto que passava eu sentia mais tristeza. Eu me sentia enganada. Ninguém me disse que eu poderia ter tanta dissociação. Ninguém me disse que poderiam me amarrar. Ninguém me disse que colocariam fraldas. Eu estava sozinha. Suja. Muito mal. E ninguém vinha ficar comigo.

Eu não conseguia falar direito. Acredito que pelo efeito da medicação… Mas também por toda a angústia, dor, sensação de abandono, tristeza e desespero que eu estava sentindo. Consegui dizer para a enfermeira que tudo estava rodando. Eu sentia muita náusea. Pedi para soltarem minhas pernas. Ela não gostou. Mas acabou soltando.

Consegui dizer também que eu estava molhada. Olhei para o relógio na parede. Eram duas horas da manhã. A enfermeira colocou outra fralda em mim. E eu não conseguia lembrar de nada do que tinha acontecido antes do início dos delírios. Eu estava muito triste. Com muita náusea. Com muita tontura. Me sentindo abandonada. Me sentindo enganada. Sem controle de absolutamente nada.

Eu não precisava daquilo. E tenho certeza de que não teria aceitado se tivessem me explicado direito. Era meu direito saber. Consegui pedir para a paciente do quarto colocar meu celular desbloqueado na minha mão. E comecei a enviar mensagens para minha companheira. Eu queria ir embora. Eu estava com medo de ficar ali. Eu chorava muito. Estava arrasada. O tempo não passava. E eu não conseguia dormir.

Em algum momento a enfermeira apareceu com uma medicação que disse ser para o vômito. Consegui perguntar por que tinham me amarrado. Ela disse que eu estava muito agitada. Mas eu não me lembro. A madrugada foi passando. O dia foi amanhecendo. Consegui cochilar um pouco. E quando acordei… estava acontecendo a troca de plantão.

Eu ainda estava em crise de choro. Tudo parecia rodar. Minha fala saía difícil, enrolada. Eu não conseguia levantar. Meu corpo parecia pesado, estranho… e eu estava muito molhada. Logo depois da troca de plantão, a enfermeira veio se apresentar. Eu disse a ela que estava molhada e também falei o quanto estava triste e irada por estar naquela situação que eu não escolhi viver. Ela foi me trocar.

Eu estava muito molhada mesmo. Fiz muito xixi — um dos efeitos da intoxicação pelo lítio. Além disso, eu estava recebendo glicose e eletrólitos em bomba de infusão, o que aumenta muito a produção de urina. Ela me deu um banho de leito. Naquele momento aconteceu algo estranho dentro de mim: ao mesmo tempo em que eu me sentia cuidada, eu também me sentia mal. Mal porque eu não precisava estar naquela situação. Mal porque eu sentia vergonha. Eu quase não conseguia ajudar. Meus braços e pernas até se mexiam um pouco, mas estavam pesados, lentos, como se não fossem meus. Ela trocou o lençol, colocou outra camisola. Fez tudo o que podia fazer naquele momento, porque eu ainda estava muito sob efeito da medicação e não conseguia levantar. Colocou fralda novamente. E isso é horrível. Porque a fralda vaza, o xixi passa… e logo eu estaria molhada de novo.

Minha companheira chegou. Quando a vi, consegui me acalmar um pouco. Mas meu corpo parecia travado. Era uma sensação assustadora: minha mente mandava eu levantar o braço, olhar para o lado… e meus membros não obedeciam. Não demorou muito e o psiquiatra chegou. Ele chegou feliz. Parecia imaginar que eu teria gostado da experiência e que estaria bem. Ele provavelmente esperava me encontrar animada, talvez até agradecida. Mas me encontrou naquela situação. Perguntou como eu estava. Eu disse que estava mal. E que sentia muita raiva e muita tristeza ao mesmo tempo.

"Se eu conseguisse levantar, eu iria embora dali… e eu estava com tanta raiva que eu 'mataria ele'."

Não era um plano. Era desespero e indignação falando. Eu disse a ele que me senti enganada. Porque ele me falou da parte boa, de como aquilo poderia ajudar… mas não me falou da parte ruim. Não explicou que efeitos colaterais assim poderiam acontecer, mesmo que não aconteçam com todo mundo. E se um medicamento pode provocar algo assim, eu tinha o direito de saber. Também disse que nem me avisaram quando começaram a passar a cetamina. Usaram a mesma veia que já estava ruim, aquela que eu tinha avisado que doía e que precisava trocar. E ninguém ficou comigo. Eu voltei à realidade sozinha. Com medo. Com angústia. Assustada. Com vergonha. Presa. Molhada. Suja. Sem conseguir me mexer. Sem ninguém ali para conversar comigo. Eu estava confusa, sem entender o que tinha acontecido. Disse a ele que estava muito triste mesmo. Ele ouviu… e saiu. Mas o sentimento de ter sido enganada pela omissão das informações foi muito grande. Tão grande que eu ainda sinto isso hoje.

Minha companheira ficou comigo. Consegui tomar café da manhã. Eu estava com muita fome. Ainda não conseguia forças para levantar, então para não ficar molhada eu pedia a comadre toda hora para fazer xixi. É muito ruim. Perguntei para uma paciente que estava lá por que tinham me amarrado. Ela disse que não entendeu também. Disse que foi falar com o médico para alguém ir me ver, e que ele foi grosseiro com ela.

Passei muito tempo tentando entender o que tinha acontecido. As enfermeiras daquele plantão me disseram que essa cetamina geralmente é usada em pacientes que estão sedados ou entubados. Acho que, por causa da grande carga de estresse que eu estava vivendo, foi prescrito clonazepam e quetiapina — medicações que eu já tinha pedido dias antes, porque estava ouvindo algumas vozes intrusivas. O resultado foi um dia inteiro sem conseguir levantar da cama. Passei a maior parte do tempo dormindo. Mas quando acordava, vinha uma ansiedade enorme. Às vezes eu chorava. Eu me sentia perdida.

A veia? aquela mesma que eu tinha dito que estava doendo… Não trocaram. Administraram a medicação na mesma veia. Comecei a sentir muita dor. Quando foram ver, eu estava desenvolvendo uma flebite. Foi só então que trocaram o acesso. Fiquei triste também por isso. Porque eu estava na UTI. E ter flebite já não é bom em lugar nenhum… mas na UTI, onde são cuidados intensivos, é ainda mais complicado.

Em uma passagem de plantão eu ouvi algo. Disseram que meus eletrólitos estavam quase normalizados, que meus batimentos cardíacos já estavam normais e que eu estava aguardando vaga na clínica psiquiátrica. Mas eu apenas ouvi. Ninguém falou isso diretamente para mim. Falei com minha companheira. Ela disse que não sabia de nada. Eu entendi e concordei. Mas aquela informação ficou na minha cabeça. Porque eu tinha certeza de que estavam falando de mim.

Eu ainda não conseguia levantar. Continuei usando a comadre, mas já conseguia sentar na cama e me alimentar. A tarde passou. A noite também. No dia seguinte aceitei a fruta do café da manhã. Eu estava melhor. As vozes tinham desaparecido. Eu não tinha mais planos de autoextermínio. Eu estava aguardando receber alta. Até que chegou a equipe da psiquiatria… E então…

...continua no próximo capítulo — que sai na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: O Trauma da Omissão

O relato da Elis expõe a importância do Consentimento Informado.Na saúde mental, a transparência sobre efeitos colaterais é parte do tratamento. A sensação de "ser enganada" gera um trauma que pode dificultar a adesão a tratamentos futuros. Além disso, o desenvolvimento de uma flebite em ambiente de cuidados intensivos, após alertas da paciente, demonstra uma falha na Humanização Hospitalar. O paciente na UTI não perde sua autonomia.

Bibliografia de Apoio:
PNH. HumanizaSUS: Política Nacional de Humanização. Ministério da Saúde.
PESSINI, L. Humanização e Cuidados Paliativos. Loyola, 2004.

Um momento de reflexão

Você já sentiu que sua voz foi silenciada em um momento de dor? O sentimento de abandono deixa marcas que exigem tempo para cicatrizar. Como você lida com a quebra de confiança? Deixe seu comentário e vamos conversar.

Relato Real por: Elis Jurado

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A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho ...