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terça-feira, 10 de março de 2026

Quando a dor grita mais alto que a razão: vozes, lítio e a noite em que eu quis morrer

Quando a dor grita mais alto que a razão

Eu já não estava bem. Chorava fácil. As vozes estavam comigo há quase um mês. Ideias suicidas iam e voltavam. Mas eu não queria aborrecer ninguém. Porque ninguém entende.

Um desentendimento com minha filha, somado a um nível de estresse já alto, foi o gatilho. Não foi “o motivo”. Foi o estopim. Algo tomou conta de mim. Eu me feri com uma faca. Agredi minha filha de leve. Bati minha cabeça contra a parede. Dei socos na parede. Eu encontrei uma força que não parecia minha.

Chorei desesperadamente. E o pior sentimento não era a dor física. Era ter perdido o controle. Pedi perdão à minha filha. Mas dentro de mim já havia uma certeza silenciosa: eu não queria mais viver. Fui contida por familiar. Chorei até adormecer.

No dia seguinte acordei com os olhos inchados. No caminho para o trabalho da minha filha, crises de choro constantes. Voltei para casa tentando me recompor. Eu chorava, mas naquele momento não pensava em morrer. Até saber que minha filha distorceu o que havia acontecido. Eu odeio mentira. Ela mentiu. Inventou coisas.

Aquilo me atravessou como abandono. Vieram raiva, vergonha, culpa, dor. E as vozes. A voz de um homem gritava que nada teria solução. Que eu precisava ir embora deste mundo.

Eu já havia pesquisado sobre a letalidade do Lítio semanas antes. Sabia dos riscos e das sequelas. Mas naquele momento eu não pensava em sequelas. Eu só queria cessar o sofrimento. Eu não queria viver. Ingeri grande quantidade da medicação. Calculei o horário, planejei estar sozinha. Não contei a ninguém.

Cerca de 20 minutos depois, comecei a vomitar. Vômitos constantes, diarreia, mal-estar intenso. E, estranhamente, eu estava em paz. Eu me organizei: escrevi senhas, fiz uma carta de despedida.

Familiar percebeu os vômitos, insistiu para irmos ao hospital. Recusei. Chamaram minha mãe. Quando ela chegou, eu chorei muito. A voz gritava: “Não vá ao hospital”. Mas, em algum lugar dentro de mim, havia algo que queria uma chance. Aceitei ir. Entrei na triagem sozinha e contei apenas para a enfermeira. Ali começava outra história.

(continua...)


🧠 O que a ciência explica

Crises suicidas muitas vezes não são decisões frias e lineares. São estados de desregulação intensa, onde há ativação extrema do sistema de estresse e redução da capacidade racional. Vozes podem surgir em quadros psicóticos ou afetivos e o impulso supera o medo de consequências.

Estudos mostram que muitas tentativas ocorrem em janelas curtas de impulsividade aguda. Sobreviver não significa que não foi grave. Significa que houve intervenção — externa ou interna.

Texto por: Elis Jurado

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Se você já esteve à beira de perder o controle, saiba: crises passam. Elas mentem, distorcem e convencem que não há saída. Mas há.

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terça-feira, 3 de março de 2026

Saudade e Bipolaridade: O Luto de Si Mesmo na Saúde Mental

Saudade: Quando a Alma Quer Voltar

Saudade é uma palavra pequena para um sentimento tão grande. É saudade de momentos. De lugares. De pessoas. E, às vezes, de quem a gente foi.

Todo mundo sente saudade. Da infância. De um abraço que não existe mais. De uma fase que passou rápido demais. Mas existe um tipo de saudade que quase ninguém fala: a saudade de quem vive com transtornos de humor. A saudade que acompanha quem é bipolar.

É a saudade dos dias em que a mente estava silenciosa. Dos períodos em que o corpo não doía. Dos momentos em que viver parecia mais simples, mais leve, mais possível. É sentir falta de si mesma. Da versão que sorria sem esforço. Da pessoa que conseguia planejar, sonhar, sustentar rotinas.

A bipolaridade traz ciclos. E, com eles, vem essa saudade estranha: saudade de quando a fase boa estava aqui — mesmo sabendo que ela vai embora. Quando a melancolia chega, a saudade pesa mais. Ela não é só lembrança. Ela é comparação. É olhar para trás e pensar: “eu já fui melhor do que estou agora”. E dói.

Dói porque ninguém vê. Por fora, a vida segue. Por dentro, a alma tenta lembrar como era respirar sem esforço. Talvez a saudade seja isso: a alma tentando voltar para um lugar onde ela se sentiu em paz. Mas a vida não anda para trás. O que podemos fazer é viver o agora — mesmo com saudade, mesmo com dor. Viver do jeito que dá. Um dia de cada vez. Uma fase de cada vez.


O que a ciência diz sobre a Saudade e o "Luto de Si Mesmo"

Na psicologia, o sentimento descrito pela Elis é muitas vezes comparado ao "luto funcional" ou ao luto pela identidade prévia ao diagnóstico ou à crise. No Transtorno Bipolar, as oscilações de humor (ciclos) criam uma fragmentação da percepção do "eu". Quando a pessoa está em depressão, a memória da fase estável ou da hipomania gera uma comparação dolorosa, onde o presente parece sempre insuficiente em relação ao passado.

Aceitar que a vida não é linear e que os ciclos fazem parte da patologia é um dos maiores desafios terapêuticos. A saudade, nesse contexto, pode ser ressignificada não como uma vontade de voltar, mas como um registro de que a paz é possível e de que, embora as fases mudem, a essência do ser permanece atravessando cada uma delas.

Bibliografia de Apoio:
KAY REDFIELD JAMISON. Uma Mente Inquieta: Memórias de Loucura e Humores. Martins Fontes, 2002.
APA. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Artmed, 2014.

💬 Se esse texto tocou você

Talvez você também sinta essa saudade silenciosa. De momentos em que a mente descansava. Ou de quem você foi antes da dor se tornar rotina. Se quiser, escreva aqui embaixo. Conte do que você sente saudade. Às vezes, dividir o peso faz a saudade doer um pouco menos.

Elis — sentindo, escrevendo, sobrevivendo.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Embotamento Afetivo e Resiliência: O Que Significa "Dormir Dentro de Si"

Houve um tempo em que eu fiquei dormindo dentro de mim

Levei tempo demais ali, adormecida por dentro. Não sentia quase nada. Talvez não fosse vazio — talvez fosse cansaço. Cansaço de aguentar, de insistir, de sobreviver em silêncio.

Existe um nó que mora no meu peito. Às vezes ele sobe, aperta a garganta, rouba o ar. Não é drama. É o corpo lembrando de tudo o que a boca não conseguiu dizer.

Mesmo assim, ainda existem mãos que me chamam de volta. Mãos de esperança. Mãos que ficam quando eu mesma desisto de mim. São elas que, vez ou outra, me devolvem a fé que pensei ter perdido.

Aprendi cedo que o mundo tenta nos convencer a ir embora. A soltar o que é nosso. A abandonar a raiz. Mas também aprendi que ir embora demais é deixar espaço para quem nunca cuidou.

Tem dias em que as forças acabam. Eles te cansam de propósito. Te tiram o fôlego para que você não reaja. Reescrevem sua história, escondem os livros, na tentativa de te fazer esquecer quem você foi.

Mas eu lembro. Lembro que já fui livre. Que já voei alto. Que já acreditei em finais bons. Hoje, às vezes, me sinto enjaulada. Com as asas machucadas. Vivendo de migalhas emocionais. Mas ainda assim, sigo.

Sigo porque foi isso que me ensinaram em casa: continuar. Cuidar da raiz, mesmo quando o chão está seco. Viver, mesmo quando viver dói. Talvez eu não escreva finais perfeitos. Mas escrevo finais possíveis. Finais que honram quem eu sou e a terra emocional de onde eu vim.


O que a ciência diz sobre o Embotamento e a Resiliência

O estado de "dormir dentro de si" descrito pela Elis é conhecido na psicopatologia como embotamento afetivo ou anestesia emocional. Comum em quadros de depressão maior ou episódios mistos do transtorno bipolar, é uma defesa do organismo contra uma dor que se tornou insuportável.

A "raiz" mencionada no texto simboliza a resiliência — a capacidade do ego de manter sua estrutura básica mesmo sob pressões extremas. Buscar mãos que "chamam de volta" e valorizar a própria história são passos terapêuticos fundamentais para o processo de despertar emocional e recuperação da autonomia.

Bibliografia de Apoio:
CYRULNIK, B. Resiliência: Essa Inaudita Capacidade de Lutar contra a Adversidade. Instituto Piaget, 2004.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Artmed, 2018.

Reflexão:
Nem sempre estar parado é desistir. Às vezes, é só o tempo que a alma precisa para acordar.

💭 E você?

Em que parte do caminho você sente que adormeceu?
E o que ainda te faz querer ficar?

Se esse texto te atravessou, deixe um comentário.
Às vezes, ser visto já é um recomeço.

Se o cansaço emocional estiver pesado demais, procure ajuda profissional.
Relato Real por: Elis Jurado

Quando a dor grita mais alto que a razão: vozes, lítio e a noite em que eu quis morrer

Quando a dor grita mais alto que a razão Eu já não estava bem. Chorava fácil. As vozes estavam comigo há quase um mês. Ideias suicidas ...