terça-feira, 5 de maio de 2026

Relato UTI: A Falsa Esperança da Alta e o Surgimento da Vaga

A Chegada ao Hospital: Entre a Recusa e a UTI

Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém. Chegando ao hospital, entrei para a triagem quase imediatamente, porque perceberam que eu realmente não estava bem.

Na triagem, acredito que meus sinais vitais ainda estavam bons, mas perguntaram o que tinha acontecido. Foi então que eu disse que havia tomado uma cartela de lítio de liberação prolongada, aproximadamente três horas antes. Eu ainda estava consciente e orientada, mas com muitos vômitos, diarreia e aumento da diurese.

A enfermeira perguntou quantos comprimidos eu havia tomado. Eu não soube responder. Só lembrava que tinha sido uma cartela inteira. Ela me levou diretamente para a sala de observação. Minha mãe e minha companheira ficaram do lado de fora.

Ilustração de uma paciente em um ambiente hospitalar, sentada em uma maca de triagem, cercada por equipamentos médicos e monitores. A cena transmite a sensação de apatia e dissociação descrita por Elis Jurado no momento da internação.

Lá dentro me perguntaram novamente a quantidade exata, e eu repeti: — Uma cartela. Era tudo o que eu lembrava. E, na verdade, eu não estava disposta a pensar muito sobre aquilo. Eu estava ali… mas ao mesmo tempo parecia que eu não estava. Eu não sentia medo. Não sentia nada. As vozes ainda diziam que eu não deveria dar muitas informações, que era melhor ficar em silêncio.

Rapidamente começaram os procedimentos. Me colocaram em monitores. Fizeram punção venosa. Realizaram eletrocardiograma. Não demorou muito e minha companheira entrou dizendo que iriam me transferir para a UTI. Eu fiquei brava. Porque eu só tinha aceitado passar pelo pronto-socorro. Na minha cabeça aquilo parecia exagero. Eu sabia o que tinha feito… mas naquele momento parecia que eu não tinha dimensão real da gravidade.

Os médicos disseram que estavam em contato com o Centro de Intoxicação Exógena. Eu estava ali como se fosse apenas um corpo respirando. Mas sem sentir nada. Contei tudo isso ao psiquiatra e também à psicóloga. Eles perguntaram se eu ainda tinha ideias de concretizar o autoextermínio. Eu disse que não. Expliquei que a quetiapina ajudaria a parar as vozes.

Também contei a verdade sobre o revólver calibre .22. Expliquei que ele ainda não estava em minhas mãos, porque como eu não tinha conseguido encontrar a munição, eu nem tinha ido retirar a arma. O psiquiatra disse que, provavelmente, eu receberia alta. Fiquei contente. Afinal, já eram seis dias na UTI. Depois a equipe da clínica médica entrou e disse que ainda precisariam repor potássio. Entendi que a alta não viria naquele dia. Não gostei. Mas também não resisti.

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. A gente conversava tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse:

— Saiu a vaga.

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: Intoxicação e o "Corpo Respirando"

Esse relato ilustra o que chamamos de distanciamento afetivo em crises graves. Mesmo diante de procedimentos invasivos e da transferência para uma UTI, a paciente relata uma ausência de medo ou dimensão da gravidade. Clinicamente, a intoxicação por lítio pode causar confusão mental e lentificação, mas aqui notamos também uma defesa psicológica: a mente se "desliga" para suportar a dor emocional.

A cooperação com a equipe, embora relutante, e a honestidade sobre os planos anteriores (como a arma e a medicação) são sinais de que o vínculo terapêutico começou a ser reestabelecido, permitindo que a equipe médica e o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) pudessem agir com segurança.

Bibliografia de Apoio:
KAPLAN, H. I. Compêndio de Psiquiatria. Artmed.
Conselho Federal de Psicologia. Atendimento em Crise e Urgência.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

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💬 A jornada da recuperação não é linear.

Você já se sentiu como um "corpo respirando", apenas observando a vida acontecer sem conseguir sentir nada? Às vezes, o primeiro passo para a cura é aceitar que precisamos de ajuda, mesmo quando não entendemos a gravidade da situação. Deixe seu comentário abaixo: sua história também merece ser ouvida.

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