A Chegada ao Hospital: Entre a Recusa e a UTI
Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém. Chegando ao hospital, entrei para a triagem quase imediatamente, porque perceberam que eu realmente não estava bem.
Na triagem, acredito que meus sinais vitais ainda estavam bons, mas perguntaram o que tinha acontecido. Foi então que eu disse que havia tomado uma cartela de lítio de liberação prolongada, aproximadamente três horas antes. Eu ainda estava consciente e orientada, mas com muitos vômitos, diarreia e aumento da diurese.
A enfermeira perguntou quantos comprimidos eu havia tomado. Eu não soube responder. Só lembrava que tinha sido uma cartela inteira. Ela me levou diretamente para a sala de observação. Minha mãe e minha companheira ficaram do lado de fora.
Rapidamente começaram os procedimentos. Me colocaram em monitores. Fizeram punção venosa. Realizaram eletrocardiograma. Não demorou muito e minha companheira entrou dizendo que iriam me transferir para a UTI. Eu fiquei brava. Porque eu só tinha aceitado passar pelo pronto-socorro. Na minha cabeça aquilo parecia exagero. Eu sabia o que tinha feito… mas naquele momento parecia que eu não tinha dimensão real da gravidade.
Os médicos disseram que estavam em contato com o Centro de Intoxicação Exógena. Eu estava ali como se fosse apenas um corpo respirando. Mas sem sentir nada. Contei tudo isso ao psiquiatra e também à psicóloga. Eles perguntaram se eu ainda tinha ideias de concretizar o autoextermínio. Eu disse que não. Expliquei que a quetiapina ajudaria a parar as vozes.
Também contei a verdade sobre o revólver calibre .22. Expliquei que ele ainda não estava em minhas mãos, porque como eu não tinha conseguido encontrar a munição, eu nem tinha ido retirar a arma. O psiquiatra disse que, provavelmente, eu receberia alta. Fiquei contente. Afinal, já eram seis dias na UTI. Depois a equipe da clínica médica entrou e disse que ainda precisariam repor potássio. Entendi que a alta não viria naquele dia. Não gostei. Mas também não resisti.
Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. A gente conversava tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse:
— Saiu a vaga.
Continua na próxima terça-feira.
O Olhar da Psicologia: Intoxicação e o "Corpo Respirando"
Esse relato ilustra o que chamamos de distanciamento afetivo em crises graves. Mesmo diante de procedimentos invasivos e da transferência para uma UTI, a paciente relata uma ausência de medo ou dimensão da gravidade. Clinicamente, a intoxicação por lítio pode causar confusão mental e lentificação, mas aqui notamos também uma defesa psicológica: a mente se "desliga" para suportar a dor emocional.
A cooperação com a equipe, embora relutante, e a honestidade sobre os planos anteriores (como a arma e a medicação) são sinais de que o vínculo terapêutico começou a ser reestabelecido, permitindo que a equipe médica e o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) pudessem agir com segurança.
Bibliografia de Apoio:
KAPLAN, H. I. Compêndio de Psiquiatria. Artmed.
Conselho Federal de Psicologia. Atendimento em Crise e Urgência.
Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado
Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.
💬 A jornada da recuperação não é linear.
Você já se sentiu como um "corpo respirando", apenas observando a vida acontecer sem conseguir sentir nada? Às vezes, o primeiro passo para a cura é aceitar que precisamos de ajuda, mesmo quando não entendemos a gravidade da situação. Deixe seu comentário abaixo: sua história também merece ser ouvida.
