terça-feira, 12 de maio de 2026

A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta

Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e também para me dar alta. Foi então que a porta do quarto abriu novamente.

Entrou outro psiquiatra. Ele se apresentou — era um médico que ainda não tinha ido me ver antes. Parecia ser alguém com mais autoridade na equipe, talvez um chefe. Mas se apresentou de forma muito respeitosa. Disse que soube do que havia acontecido e que entendia a minha insatisfação e a quebra de confiança.

Depois começou a explicar com calma sobre a clínica psiquiátrica: como era o funcionamento, o tipo de tratamento, a rotina. Ele também reconheceu que os colegas não haviam conduzido a situação da melhor forma. Disse claramente que deveriam ter conversado comigo antes, explicado, orientado e perguntado se eu aceitava.

Falamos também sobre a administração da cetamina. Expliquei que não tinha recebido as orientações necessárias. Ele concordou que o ideal teria sido uma abordagem diferente, inclusive com um termo de consentimento. Comentou que a cetamina costuma ser utilizada em pacientes com quadros muito graves, o que não era exatamente a minha situação.

Foi uma conversa boa. Pela primeira vez senti que alguém estava realmente escutando. Ele demonstrou uma visão mais ampla e muito respeito. Eu estava bem calma naquele momento. Expliquei para ele que compreendia a questão da internação, mas que o problema principal tinha sido a forma como tudo aconteceu. A sensação que tive foi de que a equipe estava tramando algo contra mim.

Também comentei que muitos profissionais mais jovens precisam ser melhor preparados para respeitar o indivíduo, para dialogar e para seguir os protocolos legais e éticos. A impressão que tive foi que muitos estavam motivados pela oportunidade de aplicar uma medicação que não usam com frequência, talvez para observar resultados, aprender mais… Todos concordaram. Só não conversaram comigo.

Depois dessa conversa, ele decidiu me dar alta, como já havia combinado e até gravado no dia anterior. 

O médico clínico passou no quarto, avaliou o braço, prescreveu antibiótico por causa da flebite e, finalmente, recebi alta. Saí do hospital com três flebites, os braços cheios de hematomas, muita indignação e também muita tristeza com a forma como a saúde mental ainda é conduzida.

Isso me impacta ainda mais porque estou estudando para me tornar psicóloga. Saber que, no futuro, terei que conviver e trabalhar ao lado de profissionais que agem dessa forma é algo difícil de aceitar.

Voltei para casa. Queria ficar em silêncio. Minha filha comentou que talvez tivesse sido melhor eu ter ficado internada. Sei que ela não falou por maldade, mas aquilo me deixou muito triste. Porque, se fosse ela no meu lugar, eu iria querer que estivesse perto de mim. Nos próximos textos vou contar como foram os dias em casa.

(continua…)


O Olhar da Psicologia: 

A Escuta Ativa como Reparação

O relato da Elis expõe como a falha ética e a quebra de protocolos podem causar danos psicológicos profundos (iatrogenia). A conversa com o psiquiatra chefe foi um ato de reparação clínica e ética. 

Ao escutar a paciente, validar a sua indignação e reconhecer o erro da equipe, o médico restaurou a dignidade de Elis, permitindo que ela saísse do hospital não como um "corpo respirando", mas como um sujeito de direitos.

Este caso reforça que a Humanização na saúde não é um favor, é uma obrigação legal. 

A aliança terapêutica — a confiança entre paciente e equipe — é o fator de cura mais importante. Sem diálogo e consentimento, o tratamento se torna uma imposição que fere e traumatiza.

Bibliografia de Apoio:
Código de Ética Profissional dos Psicólogos.
Lei nº 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica).

💬 A escuta é o primeiro passo para o cuidado verdadeiro.

Você já passou por uma situação onde sentiu que o seu "consentimento" foi ignorado em um tratamento de saúde? Ou, ao contrário, já teve a experiência de ser realmente ouvido por um profissional, e como isso mudou a sua percepção de cura? Sua história é muito importante. Compartilhe sua experiência nos comentários.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

A Quebra de Confiança: Quando o Hospital Decide por Você

A Quebra de Confiança e a Luta pela Autonomia

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. Conversávamos tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse: — Saiu a vaga.

Eu olhei espantada, tentando entender, afinal, eu não estava esperando vaga nenhuma. Ele continuou: — Sim, saiu a sua vaga para a clínica psiquiátrica. Logo em seguida entrou o restante da equipe, junto com a psicóloga, e disseram: — Amanhã cedinho a ambulância vai levar você.

Minha prima não entendeu nada. Eu pedi que ela saísse, porque precisava conversar com a equipe. Ela achava apenas que eu estava internada por alguma alteração cardíaca, e eu não queria contar a verdade. Assim que ela saiu, eu fiquei muito brava. Comecei a questionar: — Que vaga? Eu não vou para clínica nenhuma. Quem pediu essa vaga?

Ilustração artística de uma paciente feminina (Elis Jurado) sentada e consciente em um leito de UTI. Ela está conversando calmamente com dois médicos da equipe de psiquiatria, que estão em pé ao lado da cama segurando pranchetas. A expressão da paciente é serena, e o detalhe da flebite (inflamação na veia) é visível em seu braço. O ambiente hospitalar é visível, com monitores e suportes de soro, e uma janela ao fundo mostra uma cidade ao anoitecer. A cena transmite o diálogo e a avaliação psiquiátrica descritos por Elis Jurado.
A equipe insistiu que eu precisava ficar 15 dias lá. Aquilo me irritou ainda mais. Eu respondi que tinha uma vida fora dali, precisava trabalhar, estava perdendo aulas, e que eu não aceitava ir. Ninguém havia sequer me perguntado. Comecei a arrancar o aparelho de pressão, dizendo que iria embora, que pediria alta a pedido. A confiança tinha sido totalmente quebrada.

Chamaram minha companheira, que trabalha no mesmo hospital. Ela pareceu receosa de contrariar os médicos e disse que talvez fosse melhor eu ir. Aquilo foi mais uma quebra de confiança para mim. Eu disse que entraria com processo, que eu não poderia ser obrigada. Eu estava fragilizada, mas consciente, orientada e com minhas capacidades cognitivas preservadas. Liguei para uma advogada na frente deles.

É muito difícil presenciar uma equipe inteira tomando decisões sem comunicação. Comecei a gravar tudo. A psicóloga disse que eu poderia responder judicialmente se não apagasse. Eu disse que não tinha problema, mas que não confiava mais neles. Deixei claro: — Eu tenho um transtorno, mas não sou louca. Eu sei muito bem o que posso e o que não posso aceitar.

A partir das 16 horas, decidi que não aceitaria mais alimentação nem nada que me oferecessem. Tinha medo de que colocassem algum medicamento para me sedar e me internar à força. A noite foi muito longa. Eu não consegui dormir, com medo. Finalmente amanheceu. Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… ela estava bem vermelha e com saída de pus. Fiquei aguardando o clínico para avaliar a flebite e me dar alta. Foi então que a porta abriu novamente. Entrou outro psiquiatra e…

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia:

Ética e Consentimento

O relato da Elis expõe uma falha crítica na Aliança Terapêutica. Segundo o Código de Ética Profissional do Psicólogo e a Lei Paulo Delgado (Reforma Psiquiátrica), a internação deve ser o último recurso e o paciente tem o direito de ser informado e participar das decisões sobre seu tratamento. O anúncio de uma transferência na frente de visitas e a falta de diálogo prévio configuram uma violação da privacidade e da dignidade do sujeito.

A resistência da Elis, baseada em seu conhecimento legal, demonstra que o diagnóstico de um transtorno mental não retira do indivíduo sua cidadania ou sua capacidade de discernimento sobre sua própria vida. O medo da sedação forçada relatado é um reflexo do trauma causado por práticas hospitalares impositivas.

Bibliografia de Apoio:
Lei nº 10.216/2001 (Lei da Reforma Psiquiátrica).
Conselho Federal de Psicologia. Código de Ética Profissional.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

💬 "Eu tenho um transtorno, mas não sou louca."

Você já sentiu que sua voz foi ignorada por causa de um diagnóstico? A luta pela autonomia na saúde mental é um desafio diário. Como você lida quando sente que sua vontade não está sendo respeitada? Deixe seu comentário e vamos fortalecer essa rede de apoio.

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Relato UTI: A Falsa Esperança da Alta e o Surgimento da Vaga

A Chegada ao Hospital: Entre a Recusa e a UTI

Eu estava cada vez pior: vômitos, diarreia, fraqueza. Então aceitei ir ao hospital. Mas não contei a verdade para ninguém. Chegando ao hospital, entrei para a triagem quase imediatamente, porque perceberam que eu realmente não estava bem.

Na triagem, acredito que meus sinais vitais ainda estavam bons, mas perguntaram o que tinha acontecido. Foi então que eu disse que havia tomado uma cartela de lítio de liberação prolongada, aproximadamente três horas antes. Eu ainda estava consciente e orientada, mas com muitos vômitos, diarreia e aumento da diurese.

A enfermeira perguntou quantos comprimidos eu havia tomado. Eu não soube responder. Só lembrava que tinha sido uma cartela inteira. Ela me levou diretamente para a sala de observação. Minha mãe e minha companheira ficaram do lado de fora.

Ilustração de uma paciente em um ambiente hospitalar, sentada em uma maca de triagem, cercada por equipamentos médicos e monitores. A cena transmite a sensação de apatia e dissociação descrita por Elis Jurado no momento da internação.

Lá dentro me perguntaram novamente a quantidade exata, e eu repeti: — Uma cartela. Era tudo o que eu lembrava. E, na verdade, eu não estava disposta a pensar muito sobre aquilo. Eu estava ali… mas ao mesmo tempo parecia que eu não estava. Eu não sentia medo. Não sentia nada. As vozes ainda diziam que eu não deveria dar muitas informações, que era melhor ficar em silêncio.

Rapidamente começaram os procedimentos. Me colocaram em monitores. Fizeram punção venosa. Realizaram eletrocardiograma. Não demorou muito e minha companheira entrou dizendo que iriam me transferir para a UTI. Eu fiquei brava. Porque eu só tinha aceitado passar pelo pronto-socorro. Na minha cabeça aquilo parecia exagero. Eu sabia o que tinha feito… mas naquele momento parecia que eu não tinha dimensão real da gravidade.

Os médicos disseram que estavam em contato com o Centro de Intoxicação Exógena. Eu estava ali como se fosse apenas um corpo respirando. Mas sem sentir nada. Contei tudo isso ao psiquiatra e também à psicóloga. Eles perguntaram se eu ainda tinha ideias de concretizar o autoextermínio. Eu disse que não. Expliquei que a quetiapina ajudaria a parar as vozes.

Também contei a verdade sobre o revólver calibre .22. Expliquei que ele ainda não estava em minhas mãos, porque como eu não tinha conseguido encontrar a munição, eu nem tinha ido retirar a arma. O psiquiatra disse que, provavelmente, eu receberia alta. Fiquei contente. Afinal, já eram seis dias na UTI. Depois a equipe da clínica médica entrou e disse que ainda precisariam repor potássio. Entendi que a alta não viria naquele dia. Não gostei. Mas também não resisti.

Já era final de tarde. Uma prima minha tinha ido me visitar e o horário de visitas já estava quase terminando. A gente conversava tranquilamente quando, de repente, o psiquiatra entrou no quarto. Sem aviso, chegou ali mesmo, enquanto minha prima ainda estava presente, e disse:

— Saiu a vaga.

Continua na próxima terça-feira.


O Olhar da Psicologia: Intoxicação e o "Corpo Respirando"

Esse relato ilustra o que chamamos de distanciamento afetivo em crises graves. Mesmo diante de procedimentos invasivos e da transferência para uma UTI, a paciente relata uma ausência de medo ou dimensão da gravidade. Clinicamente, a intoxicação por lítio pode causar confusão mental e lentificação, mas aqui notamos também uma defesa psicológica: a mente se "desliga" para suportar a dor emocional.

A cooperação com a equipe, embora relutante, e a honestidade sobre os planos anteriores (como a arma e a medicação) são sinais de que o vínculo terapêutico começou a ser reestabelecido, permitindo que a equipe médica e o CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) pudessem agir com segurança.

Bibliografia de Apoio:
KAPLAN, H. I. Compêndio de Psiquiatria. Artmed.
Conselho Federal de Psicologia. Atendimento em Crise e Urgência.

Escrito em: Campinas, SP
Por: Elis Jurado

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente 24h pelo telefone 188.

💬 A jornada da recuperação não é linear.

Você já se sentiu como um "corpo respirando", apenas observando a vida acontecer sem conseguir sentir nada? Às vezes, o primeiro passo para a cura é aceitar que precisamos de ajuda, mesmo quando não entendemos a gravidade da situação. Deixe seu comentário abaixo: sua história também merece ser ouvida.

A Escuta que Cura: Quando o Respeito Restaura a Dignidade na UTI

A Escuta e o Alívio da Alta Durante a madrugada tive febre. Olhei para o braço, naquela veia onde estava o acesso… estava bem vermelho ...