quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Modo de Sobrevivência

Modo de Sobrevivência

Foi um dia comum. Daqueles que começam normais demais para terminar do jeito que terminam.

Saí de casa tranquila. Cheia de problema, sim — dinheiro curto, cabeça cansada, coração apertado — mas nada fora do “normal” da minha vida.

Eu estava indo trabalhar.

Por descuido, em um cruzamento, aconteceu.

Eu bati o carro em uma moto.

Eu estava errada.

O tempo pareceu parar. E a primeira coisa que pensei não foi nem no prejuízo. Foi: “Meu Deus… por quê? Logo agora? Com tanta coisa já pesada, por que comigo?”

Saí do carro correndo. O moço tinha caído. Machucou a perna. Não foi algo gravíssimo, mas doeu. A moto quebrou.

Ele é Uber.

A moto é o trabalho dele. Sem moto, sem renda. E aquilo me atravessou de um jeito absurdo.

Veio um ódio de mim mesma. Uma culpa esmagadora. Uma sensação de: “eu só atrapalho, eu só faço besteira”.

Ele começou a gritar comigo:
“Você não me viu?!”

Naquele momento, eu quase fiz xixi nas calças. De verdade.

Mas eu fiquei firme.

Eu não gritei. Não chorei. Não discuti.

Olhei pra ele e falei, com a voz mais calma que consegui:

“Não, moço. Eu não te vi. Infelizmente, não vi. Mas ninguém sai de casa querendo atropelar alguém. Eu sinto muito. De verdade. Não foi minha intenção — e não é a de ninguém.”

O tom dele mudou.

A raiva baixou. A conversa ficou possível.

Ofereci ajuda. Perguntei do hospital. Ele disse que estava bem.

Trocamos telefones. Tiramos fotos dos veículos. Combinei de arcar com o conserto depois.

Entrei no carro.

Fui trabalhar.

E foi aí… foi exatamente aí… que eu desabei.

Uma crise de choro forte, descontrolada. Um ódio profundo de mim. Uma vontade de sumir do mundo. Chorei com desespero total... Sozinha, sou sozinha né.

Me senti burra. Incompetente. Errada em existir.

Pensei em nunca mais dirigir. Pensei em desistir de tudo. Pensei em desistir da vida.

Por que eu consigo ser forte quando tudo explode… mas depois quase morro por dentro?

Será que só eu sou assim?

Será que você também é?


Agora, a ciência (não sou eu falando)

O que acontece ali não é força emocional. É ativação do chamado modo de sobrevivência.

Em situações de estresse intenso, o cérebro pode desligar temporariamente emoções para permitir ação, controle e raciocínio rápido.

Isso não acontece só com pessoas bipolares. Acontece com quem já viveu sobrecarga, trauma, ansiedade, ou precisou aprender a “aguentar” desde cedo.

O colapso vem depois. Quando o corpo entende que o perigo passou e libera tudo o que foi segurado.

Não é fraqueza. É biologia.


Eu escrevo isso porque sei que não sou a única.

Tem gente que segura tudo na hora crítica. Resolve. Apazigua. Age.

E depois… paga um preço alto demais.


💬 Me conta.

Você já teve o modo de sobrevivência ativado?
Já ficou firme quando todo mundo esperava que você desmoronasse — e caiu só depois, sozinha?

Você é bipolar? Ou conhece alguém que vive assim?

Se esse texto te representou, compartilha. Às vezes, alguém precisa ler exatamente isso para se sentir menos errada por sentir.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Aprendendo a cuidar de mim

Estou aprendendo...

Eu não acordei e nem nasci, sabendo me cuidar.
Na verdade, passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.A verdade é que ainda não me cuido, estou tentando, aprendendo...

Hoje, eu estou aprendendo e tentando a me afastar do que me faz mal.
Mesmo quando dói.
Mesmo quando parece perda.
Mesmo quando a bipolaridade me confunde e faz parecer que tudo é exagero meu Mesmos quando os pensamentos gritam e se tornam tormento.

Estou aprendendo a descansar. (não está sendo fácil)
Não só o corpo — a mente também.
A entender que nem tudo precisa ser resolvido hoje.
Que nem toda angústia é urgência.
Que cada coisa tem seu tempo… mesmo quando meu cérebro insiste em correr.

Estou tentando organizar prioridades.
E isso, para alguém que vive entre extremos, não é simples.
Quando estou bem demais, quero abraçar o mundo.
Quando estou mal, mal consigo segurar a mim.

Ainda assim, estou aprendendo a olhar para o que realmente importa.
A cuidar do essencial.
A parar de me punir por não dar conta de tudo.

Estou aprendendo a me perdoar.
Pelos dias improdutivos.
Pelas recaídas.
Pelos momentos em que prometi força e só consegui sobreviver.

Demorei para entender que nunca é tarde.
Que aprender não tem idade.
Que amadurecer, às vezes, é aceitar limites — e não superá-los.

Aprendi que nunca deixo de aprender.
Nem sobre a vida, nem sobre mim.
E que, muitas vezes, para ganhar equilíbrio, eu preciso perder excessos.

Estou aprendendo a me cercar de quem quer me ver bem de verdade.
Não só animada.
Não só funcional.
Mas inteira, mesmo nos dias quebrados.

Estou aprendendo a soltar o que já não soma.
Há coisas que ontem sustentavam… e hoje só pesam.
E tudo bem reconhecer isso.

Estou aprendendo a dizer não.
A lembrar quem eu sou.
E, principalmente, a respeitar para onde eu consigo ir.

Aos poucos, começo a encontrar minha voz.
Às vezes trêmula.
Às vezes cansada.
Mas minha.

E talvez seja isso.
Talvez o sentido não seja estar bem o tempo todo.
Mas entender que eu vim, que eu estou aqui… e que um dia vou embora.
E, enquanto isso, aprender a viver do jeito mais humano possível.


📚 O que a ciência diz

A psicologia e a psiquiatria entendem o transtorno bipolar como uma condição crônica, que exige aprendizado contínuo de autorregulação, e não controle absoluto.

Estudos mostram que pessoas com bipolaridade desenvolvem melhor estabilidade quando aprendem a reconhecer limites, reduzir estímulos excessivos e praticar autocompaixão — não autocobrança.

Aprender a perder intensidade, em muitos casos, é o que permite ganhar qualidade de vida.


Hoje, eu sigo aprendendo.
Sem pressa de chegar.
Sem promessa de perfeição.

Só tentando viver — um pouco melhor do que ontem.

💬 Vamos conversar?

O que você está aprendendo sobre você neste momento da vida?

Se esse texto falou com você, deixa um comentário.
E se conhecer alguém que também está tentando aprender a viver com o que sente, compartilha.

Às vezes, aprender já é um ato imenso de coragem.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Quando eu começo a cair, e ninguém percebe

Quando eu começo a cair, mas ninguém percebe

Tem uma fase que quase ninguém vê.
Ela não é crise.
Não é choro constante.
Não é cama, nem escuro, nem desistência.

É quando eu ainda estou funcionando.

Eu acordo. Trabalho. Respondo mensagens. Sorrio quando preciso.
Por fora, tudo parece normal.
Por dentro, alguma coisa já começou a desligar.

O corpo pesa antes da tristeza.
O entusiasmo diminui antes do desânimo.
A vida vai ficando fria, como se alguém estivesse abaixando o volume do mundo.

Eu continuo indo, mas sem prazer.
Continuo falando, mas sem vontade.
Continuo vivendo, mas sem presença. Continuo existindo, respirando... E com o sorriso falso no rosto. (quase sempre é fácil, não compartilho o tamanho da minha dor).

E o pior não é cair, acho que não.
É saber que está começando... Começando de novo, sem data para acabar, e que nem poderei sofrer em paz, porque o povo não deixa.

Porque hoje eu reconheço o padrão.
Eu sei que essa fase é o aviso.
Sei que depois vem o cansaço extremo.
Depois a dor difusa.
Depois a culpa.
Depois o medo. A ansiedade. A angústia. A irritabilidade e a necessidade de ficar só, quieta, em paz, sem barulho, sem ninguém.
Depois aquela sensação antiga e conhecida:
“lá vem de novo, não aguento mais... Até quando?”.

Ninguém percebe porque ainda não dói o suficiente para fora.
Mas por dentro já dói demais.

Às vezes eu penso:
se eu não tivesse diagnóstico, talvez sofresse menos.
Porque antes eu só caía.
Agora eu caio sabendo. Sei lá, fico pensando, mas na verdade, acho que não muda nada com o diagnóstico, o diagnóstico me ajudou a obeservar mais e ter tempo para me preparar... Se bem que nem sei como se prepara para um abismo que você sabe que vem. Será que tem como se preparar para sofrer?

E isso tem um peso que não aparece em exame nenhum.

Frase de impacto:
“O mais difícil não é estar em depressão. É perceber que ela está chegando e não conseguir impedir.”


O que a ciência explica

Nos transtornos bipolares, a transição entre fases raramente é abrupta. Estudos indicam que a recaída costuma começar por sintomas físicos e cognitivos, antes do humor claramente deprimido.

  • fadiga desproporcional
  • perda de prazer (anedonia precoce)
  • lentificação mental
  • aumento da ruminação
  • hipersensibilidade ao estresse

Neurobiologicamente, há uma redução progressiva da atividade dos sistemas de recompensa e motivação. O corpo e o funcionamento mental sentem primeiro. O humor vem depois.

A medicação não elimina totalmente os episódios. Ela reduz intensidade, duração e risco de destruição. Estabilidade não é ausência de recaídas — é atravessar com menos danos.


Se você está nessa fase silenciosa — funcionando por fora e se apagando por dentro — isso não te torna fraca.

Te torna alguém que está lutando antes da queda, mesmo sem saber que não vai resolver.

E isso também é sobrevivência. Sim, eu sobrevivo. Creio que a maioria de nós sobrevivemos.


💬 Se isso tocou você:
Você já sentiu essa fase silenciosa, em que o corpo começa a cair antes da mente?

Deixe um comentário. Às vezes, colocar em palavras é o primeiro jeito de não atravessar isso sozinha.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Me odeio e odeio me odiar: O peso da autocrítica no Transtorno Bipolar

Me odeio, e odeio me odiar

Tem dias em que eu queria escrever algo positivo.
Algo que me fizesse sentir um pouco melhor comigo mesma.
Masmuitas vezes não sai.

Hoje, quem mais me machuca sou eu.
O jeito como eu me olho.
O jeito como eu me falo.
O jeito como sou.
O jeito como eu me cobro.

Eu me torno minha pior inimiga sem perceber.
Repito coisas duras na minha cabeça.
Vivo um castigo silencioso que ninguém vê. Muitas vezes nem eu vejo.

Tem dias em que eu odeio meu corpo. Quase sempre...
Meus braços.
Minha barriga.
Meu rosto.
O reflexo que aparece de surpresa em um vidro qualquer.

Odeio como a roupa cai em mim.
Odeio pensar que estão me olhando quando eu rio.
Odeio me olhar no espelho.
Odeio sentir que meu corpo é meu — como se isso fosse um peso.

Odeio nunca estar satisfeita.
Odeio querer ser perfeita.
Odeio essa busca por mim mesma.
Odeio esses sintomas.
Odeio essa bipolaridade.
Odeio o quanto tudo me afeta, o quanto tudo importa demais.

Já tentei mudar isso.
Escrevi afirmações.
Tentei brigar com as emoções.
Tentei ser racional.

Mas, às vezes, nada muda. Nunca muda...
E quando não muda, parece que o ódio só cresce. Diariamente...

Odeio meu cabelo, ou o que restou dele.
Odeio meus dentes.
Odeio sentir ciúmes.
Odeio essa ansiedade, esse medo, essa angustia.
Odeio sentir limitada, impotente, cansada, velha.
Odeio pensar que sempre tem algo quebrado em mim.

Odeio sair em fotos.
Odeio não conseguir ficar tranquila.
Odeio essas crises de choro, os limites de cognição.
Odeio esses lapsos de memória.
Odeio sentir que todos me observam, mesmo quando ninguém está.

E o mais difícil de admitir:

Eu odeio me odiar.
Mas continuo odiando.

Isso não é drama.
Não é vitimismo.
É exaustão emocional.Estou cansada e as vezes perco as esperanças...

É acordar cansada de existir dentro da própria cabeça.
É carregar um peso que não aparece em exames.
É lutar com a própria imagem, com a própria mente, com o próprio nome.

Talvez amanhã eu me trate melhor.
Talvez amanhã eu consiga escrever algo bonito.

Hoje, não.

Hoje, eu só estou sendo honesta.


📚 O que a ciência diz

A psicologia reconhece que o auto-ódio persistente está frequentemente associado a transtornos do humor, transtornos de ansiedade e experiências prolongadas de autocrítica.

Estudos indicam que lutar contra pensamentos negativos o tempo todo pode aumentar o sofrimento. Em alguns momentos, reconhecer o que se sente — sem corrigir, sem maquiar — é o primeiro passo para reduzir a intensidade da dor.

Nomear não piora.
Negar, sim.


Se você leu isso e se reconheceu,
saiba: você não é fraca.

Você está cansada, como eu, como tantos...

E cansar de si mesma dói mais do que qualquer coisa.

💬 Me conta:

Você também tem dias em que se olha e não se reconhece?
Dias em que a maior batalha é contra você mesma?

Se esse texto te atravessou, escreve aqui.
E se conhecer alguém que vive essa luta silenciosa, compartilha.

Às vezes, a primeira forma de cuidado
é parar de fingir que está tudo bem, é isso o que eu mais faço.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nem todo dia é sobre melhorar: o valor de apenas estar consigo

Hoje eu não quero melhorar, só quero ficar comigo.

Hoje eu quero andar pela casa com as luzes apagadas.
Não para fazer cena, nem porque fica bonito.
Mas porque quando a gente já está cansada por dentro, a claridade incomoda.

A luz cansa os olhos.
O barulho cansa a cabeça.
E até existir parece exigir uma energia que hoje eu já não tenho.

Hoje eu não quero fingir como estou.
Não quero responder “tô bem”.
Não quero explicar nada, nem organizar sentimento pra ninguém entender.

Quero andar descalça, usar a roupa velha, sentar no sofá e ir pra cama sem me encarar no espelho.
Sem performance. Sem pose. Sem força.

Tem dias em que até quem tenta ajudar pesa.
Não porque eu não ame.
Mas porque o silêncio, às vezes, é o único lugar onde dá pra respirar.

Hoje eu queria ignorar o mundo sem culpa.
Chorar sem alguém dizendo que vai passar.
Sentir a dor sem ser apressada pra melhorar.

Tem um tipo de tristeza que não quer solução.
Ela só quer espaço.

Hoje eu não quero ser cuidada.
Não quero ser consertada.
Não quero ser forte, nem consciente, nem exemplo pra ninguém.

Hoje eu queria deixar cair um pouco tudo aquilo que eu seguro há tanto tempo.
Porque manter tudo inteiro, o tempo todo, também cansa.

Talvez você entenda.
Talvez você também já tenha sentido isso: a necessidade de deixar a ferida passar pela vida, sem anestesia, sem ser incomodado por ninguém, sem dar explicações, sem fazer de conta que esta tudo bem, poder chorar quando der vontade.

Não é desistir da vida.
É querer viver sem fingir.

É saber que ninguém chega no alto sem conhecer o fundo.
Nem que seja por um momento.


📚 O que a ciência diz

A psicologia reconhece a importância da retirada emocional voluntária em períodos de sobrecarga psíquica.

Estudos mostram que permitir sentir emoções difíceis — sem negar, corrigir ou apressar — contribui para uma regulação emocional mais saudável ao longo do tempo.

Forçar positividade, produtividade ou reação imediata pode aumentar o sofrimento, especialmente em pessoas com ansiedade ou transtornos do humor.

Sentir não é fraqueza. Às vezes, é exatamente o que evita o colapso.


Hoje eu só quero estar comigo.
Sem promessa de melhora.
Sem discurso bonito. Eu só quero poder ser eu, sem culpa, sem perguntas, sem julgamentos.

Só existir — do jeito que der e se der.

Texto por: Elis Jurado

💬 Me conta:

Você também tem dias assim?
Dias em que não queria conselho, nem cuidado — só ficar consigo?

Se esse texto falou com você, escreve aqui.
E se conhecer alguém que precise se permitir sentir sem fingir, compartilha.

Às vezes, dar espaço para a dor é o primeiro gesto real de autocuidado. Conte um pouco de você, vamos conversar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sempre quis entender a mente humana. Talvez para tentar salvar a minha

Sempre quis entender a mente humana. Talvez para tentar salvar a minha.

Desde muito cedo, algo em mim observava as pessoas. Não era curiosidade comum. Era quase uma necessidade.

Eu olhava os outros e pensava: o que passa aí dentro? Por que algumas pessoas parecem viver com leveza, enquanto outras carregam um peso invisível?

Durante anos, essa pergunta não era teórica. Era sobrevivência.

A tristeza me acompanhou em diferentes fases da vida. Às vezes silenciosa, às vezes esmagadora. E eu nunca entendi direito de onde ela vinha.

Nada “grave” parecia ter acontecido. Nada que justificasse tanto cansaço de existir.

E talvez por isso eu tenha começado a gostar de psicologia antes mesmo de saber o nome disso.

Eu queria entender as pessoas. Mas, no fundo, queria entender a mim.

Por muitos anos, isso ficou só no desejo. Não havia dinheiro, não havia tempo, não havia estrutura emocional.

A vida era pagar contas, cuidar dos outros, sobreviver aos próprios dias. Tentar mostrar alegria.

Enquanto isso, a pergunta continuava ecoando:

Por quê? Por que tanta tristeza ao longo da vida? O que acontece dentro da mente humana?

Agora, ironicamente, quando o diagnóstico chegou, quando os nomes começaram a fazer sentido, quando entendi que meu cérebro funciona diferente… surgiu também a oportunidade de estudar psicologia.

Não como romantização. Mas como tentativa de compreensão.

Eu estudo para ajudar pessoas, sim. Para atuar, sim.

Mas, principalmente, eu estudo porque preciso entender.

Entender o que aconteceu comigo. Entender o que acontece com quem sofre em silêncio. Entender por que a dor psíquica pode ser tão física, tão real, tão incapacitante Entender porque aquele que não sente aquela dor, julga tanto o que sente e sempre arruma "soluções mágicas" para o outro.

Talvez eu nunca encontre todas as respostas.

Mas sigo estudando, lendo, observando, vivendo.

Porque, se há algo que aprendi, é que ninguém sofre “à toa”. Não deve ser, não pode ser a toa.

E que entender a mente humana talvez não cure tudo — mas pode, ao menos, tornar a vida um pouco mais habitável.


Se você também passa a vida tentando entender por que sente o que sente, saiba: você não está sozinha.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Desafio 30 dias — Dia 5

Desafio 30 dias — Dia 5

Uma foto de algum lugar onde eu já estive

Esse lugar existe.
Silencioso. Verde. Calmo.
Um caminho de madeira que atravessa as árvores como quem promete descanso.

É o tipo de lugar que muita gente chama de paz.
Onde o barulho diminui, o corpo desacelera e o mundo parece menos agressivo.
E, sim — muitas vezes é exatamente isso que a gente precisa.

Mas hoje eu preciso ser honesta.

Existem momentos da bipolaridade em que nem lugares assim conseguem alcançar a gente.
Você anda.
Você olha.
Você respira fundo.
E, mesmo assim, o choro vem.
A tristeza fica.
O peito continua pesado.

Não é falta de gratidão.
Não é drama.
Não é frescura.

É a mente em guerra consigo mesma.

Esse caminho já me acolheu…
mas também já me viu caminhar por dentro chorando, em modo automático,
tentando entender por que nem o que é bonito consegue aliviar.

E isso dói.
Dói porque a gente se cobra:
“Era pra eu estar bem aqui.”
“Era pra eu me sentir melhor.”
“O problema sou eu.”

Não.
O problema não é você, não sou eu, não somos nós.

Às vezes, o passeio ajuda.
Às vezes, não ajuda em nada.
E nos dois casos, está tudo bem.

Hoje eu olho pra essa foto e sinto duas coisas ao mesmo tempo:
🌿 vontade de voltar
💔 lembrança de que nem sempre a paz externa alcança a interna

Talvez a maturidade emocional esteja exatamente aí:
em aceitar que existem dias em que nem o lugar mais calmo do mundo dá conta da nossa dor —
e, mesmo assim, a gente continua caminhando.

Um passo de cada vez.
Mesmo triste.
Mesmo cansada.
Mesmo sem sentir nada.


📚 O que a ciência diz

Estudos em psicologia mostram que, em transtornos do humor, estímulos externos positivos (natureza, passeios, silêncio) nem sempre conseguem modular o estado emocional.

Isso acontece porque o sofrimento não está apenas na experiência, mas em alterações neurobiológicas que afetam prazer, motivação e regulação emocional.

Ou seja: não é falta de esforço.
É doença — e precisa ser respeitada.


Hoje, essa foto não é sobre um lugar bonito.
É sobre seguir andando, mesmo quando a beleza não alcança.

💬 Me conta:

Você já esteve em um lugar lindo, calmo, silencioso…
e ainda assim se sentiu vazio(a) ou triste?

Se fizer sentido, compartilha sua experiência aqui.
E se conhecer alguém que precisa entender que nem sempre o ambiente cura, compartilha esse texto.

Às vezes, só saber que não estamos sozinhos já muda o peso do caminho.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Eu ainda acredito em mim: A reconstrução da autoestima após a dor

Eu ainda acredito em mim

Já me disseram, de tantas formas diferentes, que eu não servia pra nada.
Que eu exagerava.
Que eu sentia demais.
Que o espaço que eu ocupava era grande demais para alguém como eu.

Houve dias em que essas palavras não ficaram só do lado de fora.
Elas entraram.
Grudaram na pele.
E fizeram morada dentro de mim.

Teve um tempo em que fui encurralada contra mim mesma.
Cansada demais para lutar.
Cansada demais até para chorar.
Quando perder as lágrimas pareceu mais fácil do que sustentar a dor.

Mas eu estou aqui.
De pé.
Alerta.
Mesmo com cicatrizes que ninguém vê.

Não sou resto.
Não sou sobra.
Não sou “zero à esquerda”, como tentaram me fazer acreditar.

Eu acredito em mim.
Mesmo quando a voz treme.
Mesmo quando a confiança falha.
Mesmo quando tudo dentro de mim parece em guerra.

Aprendi cedo que viver em constante batalha muda a gente.
As guerras emocionais não me destruíram — me deram asas.
Não asas bonitas.
Asas de metal.
Pesadas.
Forjadas na dor.

Hoje eu voo diferente.
Não porque não tenho medo,
mas porque me recuso a rastejar de novo.

Já não estou em liquidação emocional.
Já não me ofereço pela metade.
Já não aceito migalhas de respeito.

Somos todos diferentes.
E é exatamente isso que nos torna únicos.
Não preciso caber no molde de ninguém para existir.

Passei pelo pior.
Sobrevivi a versões minhas que quase não suportei.
E sigo acreditando — mesmo cansada — que o melhor ainda pode chegar.


🧠 Um olhar da ciência

A psicologia entende que pessoas que atravessam sofrimento emocional intenso desenvolvem mecanismos profundos de sobrevivência.

A autoestima, nesses casos, não nasce do elogio fácil, mas da reconstrução diária após a dor.

Acreditar em si não é arrogância.
É resistência.
É saúde emocional em construção.


💬 E você?

Em que momento da vida você quase deixou de acreditar em si?
E o que te trouxe de volta?

Às vezes, acreditar em si é o ato mais revolucionário que existe.

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda.
CVV – 188 (24h), procure um psiquiatra, um psicólogo.

Estável não é igual a bem

🌸 Estável não é igual a bem

Quando estou “muito bem”, tudo funciona. Tenho mais energia, mais produtividade, mais ideias, mais disposição social. Durmo menos e ainda assim acordo bem. Sou mais legal, consigo ouvir músicas, participar de pequenos eventos.

O corpo não dói. Ou dói muito pouco. A vida parece finalmente possível. Acho que é quando sinto alegria de verdade.

Hoje eu sei: esse “estar muito bem” não é só ausência de sofrimento. É uma felicidade que, infelizmente, não se sustenta. Eu digo ao psiquiatra que amo estar assim, mas comecei a entender a preocupação dele com esse “bem demais”. Não é porque seja ruim — é porque não se mantém. É bom, mas passa. Sempre passa. E a fase que vem depois costuma ser muito dolorida. Ele me explicou de forma direta: quanto mais alto o pico, mais profunda pode ser a queda. Por isso a medicação é ajustada para um meio-termo. Não para tirar a vida, mas para evitar que, quando a depressão vier — porque nos transtornos bipolares ela não é totalmente evitável — ela venha com força suficiente para destruir tudo.


Quando o “bem demais” começa a preocupar

Antes da queda, quase sempre há sinais. Mais energia do que o habitual. Menos necessidade de sono. Mais confiança. Mais resolutividade.Mais alegria de verdade.E medo da alegria, porque sei o que vem depois. Estou feliz por estar bem, mas já preocupada também, pois no decorrer desses anos, sei que não dura, nunca serei feliz de verdade eu acho.

Não vem irritação. Não vem desorganização. Vem eficiência. Vem a vontade de viver e o ânimo que falta a maior parte da vida.

E talvez por isso seja tão difícil perceber onde está o limite.

Quando estou bem demais, aprendi que preciso observar — não comemorar sem cuidado. É triste! Mas é isso, não posso ficar tão feliz por estar feliz... Não sei exatamente quanto tempo vai durar a alegria, as vezes mais, outras menos, mas a certeza é que passa.


Quando a queda começa

A descida não começa na mente. Começa no corpo. Geralmente tem sido assim depois que comecei a prestar mais atenção em mim.

Vem o cansaço. As dores. A indisposição. A perda de ânimo para coisas que antes davam prazer. Estou vivendo isso agora, o início de uma depressão, que não sei quanto profunda será, mas sei que está começando, mesmo medicada.

A mente, então, começa a correr para o futuro — sempre para cenários ruins. Medo de recaída. Medo de não dar conta. Medo de perceberem. Medo de ter que trocar medicação. Medo dos efeitos colaterais. Medo de dessa vez partir de verdade... Porque não faltam ideias e planos para isso.

A culpa aparece forte. Pensamentos duros. Autojulgamento. Revisões intermináveis da própria vida. Sinto um vazio! Me sinto um nada, um lixo, uma incapaz e questiono milhares de vezes, porque ainda estou aqui?

E junto disso, aquela frase silenciosa:

“Lá vem de novo. Eu não aguento mais!”


O que a ciência chama de estabilidade

Na psiquiatria, estabilidade não significa bem-estar pleno. Significa redução de extremos.

O tratamento busca evitar colapsos graves, hospitalizações, impulsividades e riscos maiores. Ele não promete ausência de dor.

Hoje, com diagnóstico, tenho mais consciência. Consigo identificar sinais. Evitar alguns gatilhos. Mas isso não significa controle total.O controle total não existe, nunca vai existir.

Significa conviver com ciclos — mesmo medicada.As recaídas serão para sempre, já entendi.


O luto silencioso

Existe um luto pouco falado: o luto por saber que a estabilidade passa.

Eu me esforço. Sou forte. Sustento muita coisa. Mas quando o corpo começa a esfriar, a depressão ocupa espaço.

O estresse não fica só na mente. Já virou prurido intenso, erupções na pele, dificuldade para respirar, necessidade de medicação. O corpo responde quando o limite é ultrapassado.

Não é falta de vontade. Não é fraqueza. É doença atravessando a vida.


Você já percebeu esse “bem demais” antes da queda?

Se sentir vontade, escreva nos comentários como isso acontece com você. Este espaço também é feito de escuta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando o corpo dói antes da tristeza


A depressão avisa no corpo antes de se revelar na mente.

Antes da tristeza profunda aparecer, meu corpo avisa. Não com palavras, mas com dor.

É uma dor muscular difusa, cervical, nos dedos. Às vezes parece reumatismo, às vezes tendinite. Nenhum analgésico resolve.

Eu durmo bem, mas acordo cansada. Sem ânimo. Sem vontade. Até atividades simples — como uma caminhada — passam a exigir um esforço que parece desproporcional.

A semana passada eu estava bem. Atenta. Disposta. Depois, aos poucos, vieram o choro, as dores espalhadas, a perda de interesse pelas coisas que eu gostava. Eu reconheço esse caminho. Já vivi isso outras vezes.

Meu corpo entra em depressão antes da minha mente aceitar.


O que a ciência explica sobre isso

Na bipolaridade, especialmente nas fases depressivas, o sofrimento não é apenas emocional. A literatura científica descreve fenômenos como fadiga central, lentificação psicomotora e aumento da sensibilidade à dor.

Mesmo sem alterações em exames de imagem, o sistema nervoso central pode amplificar sinais dolorosos. Isso não significa que a dor seja imaginária. Ela é neurobiológica.

Alterações nos neurotransmissores, no eixo do estresse e nos mecanismos de modulação da dor fazem com que o corpo sofra junto — e, muitas vezes, antes — do humor piorar de forma evidente.

  • a dor não melhora com analgésicos comuns
  • o cansaço não passa com descanso
  • os exames permanecem normais
  • a limitação física é real

Medicação e limites do tratamento

O bupropiona foi o medicamento que mais contribuiu para minha funcionalidade e energia. O lítio entrou como estabilizador, mesmo sem aliviar diretamente os sintomas físicos.

Estar medicada não significa estar imune à recaída. Significa, muitas vezes, reduzir riscos — não eliminar o sofrimento.


O que aprendi observando isso em mim

Aprendi a respeitar os sinais do corpo. Quando a dor aparece sem causa aparente, não interpreto mais como fraqueza.

Ainda estou refinando como lidar com isso. Ainda dói. Ainda limita. Mas hoje sei que não é preguiça, invenção ou falta de vontade. Me sinto triste porque as pessoas não entendem, apesar de não esperar que entendam, pois só entende quem sente ou já sentiu o mesmo.

Quando a dor vem, junto vêm a tristeza, a ansiedade, o medo e a vontade de sumir. Não de morrer — de pausar a existência por algumas horas, por dias... desaparecer...

Escrever isso não é reclamar. É nomear o que acontece de verdade.


  • Você não está exagerando
  • Seu corpo também sente a doença
  • Estar em tratamento não te impede de sofrer

Você já percebeu seu corpo dando sinais antes da mente entender o que está acontecendo? Como foi?

Se sentir vontade, escreva nos comentários como isso aparece em você. Este espaço também é feito de escuta.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Carta de mim para mim: Um exercício de autocompaixão e cura

Carta de mim para mim

Às vezes, tudo o que a gente precisa é parar… e se olhar com a mesma compaixão que oferece ao mundo.

Querida Eu,

Eu vejo você. Eu vejo a força, a dor, a coragem e o amor que você carrega. Eu vejo a mulher que sobreviveu, que aprendeu com medos, erros e acertos.

Eu vejo a beleza escondida que você esqueceu: sua integridade, sua empatia, sua honestidade e sua capacidade de amar.

Você não precisa ser perfeita para ser suficiente.


Uma verdade que vale para todos nós

Você não precisa se punir por sentir, por agir ou por se proteger. É hora de parar de se comparar, de se culpar e de se esconder atrás de defesas que já não te servem.

Permita-se sentir alegria, amor, reconhecimento e abundância. Permita-se agir, se expressar e se valorizar sem medo.

Lembretes importantes:

  • Você pode manter sua essência e seus limites.
  • Seu silêncio também é uma forma de cuidado.
  • Você é capaz de criar uma vida plena e leve.

Eu te abraço e digo: você merece tudo de bom que a vida tem para oferecer. E eu estou aqui para garantir que você nunca se esqueça disso novamente.

Com amor,
Sua versão curada


  • Você é suficiente
  • Você não está atrasada
  • Você merece viver com mais leveza

sábado, 3 de janeiro de 2026

🌸 Dia 04: Um hábito que eu gostaria de não ter

Dia 04: Um hábito que eu gostaria de não ter

Se existe um hábito que eu gostaria profundamente de não carregar comigo, é o de me omitir. O de silenciar minha voz por medo do que vão pensar. O de colocar os outros sempre em primeiro lugar, mesmo quando isso me custa a paz, a dignidade e, muitas vezes, a mim mesma.

Durante muito tempo, aprendi a acreditar que agradar era uma forma de ser aceita. Que ceder era sinônimo de amor. Que me adaptar demais evitaria conflitos. E assim fui abrindo mão, aos poucos, do que acredito, do que sinto, do que sou. Fui diminuindo minhas dores, relativizando meus limites, justificando injustiças, como se eu não merecesse ser ouvida.

Esse hábito também se manifesta quando me sinto inferior. Quando penso que qualquer outra pessoa é mais interessante, mais capaz, mais digna do que eu. Mesmo sabendo, no fundo, que sou forte, que já atravessei desertos, que sustentei dores que muitos não suportariam, ainda assim me pego duvidando do meu valor.

Há momentos em que percebo claramente: não é falta de capacidade, é excesso de medo. Medo de desagradar. Medo de perder. Medo de ficar sozinha. E, ironicamente, esse hábito de me anular é justamente o que mais me machuca, o que mais me afasta de mim.

Não é fácil admitir isso. Dói reconhecer quantas vezes me calei quando deveria ter falado. Quantas vezes engoli lágrimas para manter a harmonia. Quantas vezes traí meus próprios princípios para ser aceita em lugares onde talvez eu nunca tivesse que me diminuir.

Hoje, escrever sobre isso é um passo. Pequeno, mas verdadeiro. Não para me julgar, mas para me olhar com honestidade. Porque mudar começa quando a gente nomeia. E eu não quero mais carregar como hábito aquilo que me faz desaparecer.

  • O hábito de me omitir por medo do julgamento.
  • Colocar os outros sempre à frente de mim.
  • Duvidar do meu próprio valor e merecimento.
  • Abrir mão de princípios para ser aceita.
  • O desejo sincero de reaprender a me escolher.

💛 Reflexão: Reconhecer um hábito que machuca não é fraqueza. É coragem. É o início de um reencontro com quem a gente realmente é.


💭 E você?

Existe algum hábito que te machuca em silêncio?
Que te faz se calar, se diminuir ou se esquecer de si?

Talvez reconhecer — e até escrever sobre isso — seja o primeiro passo para mudar.

Se você estiver passando por um momento difícil, converse com alguém. CVV – 188 (24h).

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