Quando eu começo a cair, mas ninguém percebe
Tem uma fase que quase ninguém vê.
Ela não é crise.
Não é choro constante.
Não é cama, nem escuro, nem desistência.
É quando eu ainda estou funcionando.
Eu acordo. Trabalho. Respondo mensagens. Sorrio quando preciso.
Por fora, tudo parece normal.
Por dentro, alguma coisa já começou a desligar.
O corpo pesa antes da tristeza.
O entusiasmo diminui antes do desânimo.
A vida vai ficando fria, como se alguém estivesse abaixando o volume do mundo.
Eu continuo indo, mas sem prazer.
Continuo falando, mas sem vontade.
Continuo vivendo, mas sem presença.
Continuo existindo, respirando... E com o sorriso falso no rosto. (quase sempre é fácil, não compartilho o tamanho da minha dor).
E o pior não é cair, acho que não.
É saber que está começando... Começando de novo, sem data para acabar, e que nem poderei sofrer em paz, porque o povo não deixa.
Porque hoje eu reconheço o padrão.
Eu sei que essa fase é o aviso.
Sei que depois vem o cansaço extremo.
Depois a dor difusa.
Depois a culpa.
Depois o medo.
A ansiedade.
A angústia.
A irritabilidade e a necessidade de ficar só, quieta, em paz, sem barulho, sem ninguém.
Depois aquela sensação antiga e conhecida:
“lá vem de novo, não aguento mais... Até quando?”.
Ninguém percebe porque ainda não dói o suficiente para fora.
Mas por dentro já dói demais.
Às vezes eu penso:
se eu não tivesse diagnóstico, talvez sofresse menos.
Porque antes eu só caía.
Agora eu caio sabendo.
Sei lá, fico pensando, mas na verdade, acho que não muda nada com o diagnóstico, o diagnóstico me ajudou a obeservar mais e ter tempo para me preparar... Se bem que nem sei como se prepara para um abismo que você sabe que vem. Será que tem como se preparar para sofrer?
E isso tem um peso que não aparece em exame nenhum.
Frase de impacto:
“O mais difícil não é estar em depressão. É perceber que ela está chegando e não conseguir impedir.”
O que a ciência explica
Nos transtornos bipolares, a transição entre fases raramente é abrupta. Estudos indicam que a recaída costuma começar por sintomas físicos e cognitivos, antes do humor claramente deprimido.
- fadiga desproporcional
- perda de prazer (anedonia precoce)
- lentificação mental
- aumento da ruminação
- hipersensibilidade ao estresse
Neurobiologicamente, há uma redução progressiva da atividade dos sistemas de recompensa e motivação. O corpo e o funcionamento mental sentem primeiro. O humor vem depois.
A medicação não elimina totalmente os episódios. Ela reduz intensidade, duração e risco de destruição. Estabilidade não é ausência de recaídas — é atravessar com menos danos.
Se você está nessa fase silenciosa — funcionando por fora e se apagando por dentro — isso não te torna fraca.
Te torna alguém que está lutando antes da queda, mesmo sem saber que não vai resolver.
E isso também é sobrevivência. Sim, eu sobrevivo. Creio que a maioria de nós sobrevivemos.
💬 Se isso tocou você:
Você já sentiu essa fase silenciosa, em que o corpo começa a cair antes da mente?
Deixe um comentário. Às vezes, colocar em palavras é o primeiro jeito de não atravessar isso sozinha.




