quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Nem todo dia é sobre melhorar: o valor de apenas estar consigo

Hoje eu não quero melhorar, só quero ficar comigo.

Hoje eu quero andar pela casa com as luzes apagadas.
Não para fazer cena, nem porque fica bonito.
Mas porque quando a gente já está cansada por dentro, a claridade incomoda.

A luz cansa os olhos.
O barulho cansa a cabeça.
E até existir parece exigir uma energia que hoje eu já não tenho.

Hoje eu não quero fingir como estou.
Não quero responder “tô bem”.
Não quero explicar nada, nem organizar sentimento pra ninguém entender.

Quero andar descalça, usar a roupa velha, sentar no sofá e ir pra cama sem me encarar no espelho.
Sem performance. Sem pose. Sem força.

Tem dias em que até quem tenta ajudar pesa.
Não porque eu não ame.
Mas porque o silêncio, às vezes, é o único lugar onde dá pra respirar.

Hoje eu queria ignorar o mundo sem culpa.
Chorar sem alguém dizendo que vai passar.
Sentir a dor sem ser apressada pra melhorar.

Tem um tipo de tristeza que não quer solução.
Ela só quer espaço.

Hoje eu não quero ser cuidada.
Não quero ser consertada.
Não quero ser forte, nem consciente, nem exemplo pra ninguém.

Hoje eu queria deixar cair um pouco tudo aquilo que eu seguro há tanto tempo.
Porque manter tudo inteiro, o tempo todo, também cansa.

Talvez você entenda.
Talvez você também já tenha sentido isso: a necessidade de deixar a ferida passar pela vida, sem anestesia, sem ser incomodado por ninguém, sem dar explicações, sem fazer de conta que esta tudo bem, poder chorar quando der vontade.

Não é desistir da vida.
É querer viver sem fingir.

É saber que ninguém chega no alto sem conhecer o fundo.
Nem que seja por um momento.


📚 O que a ciência diz

A psicologia reconhece a importância da retirada emocional voluntária em períodos de sobrecarga psíquica.

Estudos mostram que permitir sentir emoções difíceis — sem negar, corrigir ou apressar — contribui para uma regulação emocional mais saudável ao longo do tempo.

Forçar positividade, produtividade ou reação imediata pode aumentar o sofrimento, especialmente em pessoas com ansiedade ou transtornos do humor.

Sentir não é fraqueza. Às vezes, é exatamente o que evita o colapso.


Hoje eu só quero estar comigo.
Sem promessa de melhora.
Sem discurso bonito. Eu só quero poder ser eu, sem culpa, sem perguntas, sem julgamentos.

Só existir — do jeito que der e se der.

Texto por: Elis Jurado

💬 Me conta:

Você também tem dias assim?
Dias em que não queria conselho, nem cuidado — só ficar consigo?

Se esse texto falou com você, escreve aqui.
E se conhecer alguém que precise se permitir sentir sem fingir, compartilha.

Às vezes, dar espaço para a dor é o primeiro gesto real de autocuidado. Conte um pouco de você, vamos conversar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sempre quis entender a mente humana. Talvez para tentar salvar a minha

Sempre quis entender a mente humana. Talvez para tentar salvar a minha.

Desde muito cedo, algo em mim observava as pessoas. Não era curiosidade comum. Era quase uma necessidade.

Eu olhava os outros e pensava: o que passa aí dentro? Por que algumas pessoas parecem viver com leveza, enquanto outras carregam um peso invisível?

Durante anos, essa pergunta não era teórica. Era sobrevivência.

A tristeza me acompanhou em diferentes fases da vida. Às vezes silenciosa, às vezes esmagadora. E eu nunca entendi direito de onde ela vinha.

Nada “grave” parecia ter acontecido. Nada que justificasse tanto cansaço de existir.

E talvez por isso eu tenha começado a gostar de psicologia antes mesmo de saber o nome disso.

Eu queria entender as pessoas. Mas, no fundo, queria entender a mim.

Por muitos anos, isso ficou só no desejo. Não havia dinheiro, não havia tempo, não havia estrutura emocional.

A vida era pagar contas, cuidar dos outros, sobreviver aos próprios dias. Tentar mostrar alegria.

Enquanto isso, a pergunta continuava ecoando:

Por quê? Por que tanta tristeza ao longo da vida? O que acontece dentro da mente humana?

Agora, ironicamente, quando o diagnóstico chegou, quando os nomes começaram a fazer sentido, quando entendi que meu cérebro funciona diferente… surgiu também a oportunidade de estudar psicologia.

Não como romantização. Mas como tentativa de compreensão.

Eu estudo para ajudar pessoas, sim. Para atuar, sim.

Mas, principalmente, eu estudo porque preciso entender.

Entender o que aconteceu comigo. Entender o que acontece com quem sofre em silêncio. Entender por que a dor psíquica pode ser tão física, tão real, tão incapacitante Entender porque aquele que não sente aquela dor, julga tanto o que sente e sempre arruma "soluções mágicas" para o outro.

Talvez eu nunca encontre todas as respostas.

Mas sigo estudando, lendo, observando, vivendo.

Porque, se há algo que aprendi, é que ninguém sofre “à toa”. Não deve ser, não pode ser a toa.

E que entender a mente humana talvez não cure tudo — mas pode, ao menos, tornar a vida um pouco mais habitável.


Se você também passa a vida tentando entender por que sente o que sente, saiba: você não está sozinha.

sábado, 17 de janeiro de 2026

Desafio 30 dias — Dia 5

Desafio 30 dias — Dia 5

Uma foto de algum lugar onde eu já estive

Esse lugar existe.
Silencioso. Verde. Calmo.
Um caminho de madeira que atravessa as árvores como quem promete descanso.

É o tipo de lugar que muita gente chama de paz.
Onde o barulho diminui, o corpo desacelera e o mundo parece menos agressivo.
E, sim — muitas vezes é exatamente isso que a gente precisa.

Mas hoje eu preciso ser honesta.

Existem momentos da bipolaridade em que nem lugares assim conseguem alcançar a gente.
Você anda.
Você olha.
Você respira fundo.
E, mesmo assim, o choro vem.
A tristeza fica.
O peito continua pesado.

Não é falta de gratidão.
Não é drama.
Não é frescura.

É a mente em guerra consigo mesma.

Esse caminho já me acolheu…
mas também já me viu caminhar por dentro chorando, em modo automático,
tentando entender por que nem o que é bonito consegue aliviar.

E isso dói.
Dói porque a gente se cobra:
“Era pra eu estar bem aqui.”
“Era pra eu me sentir melhor.”
“O problema sou eu.”

Não.
O problema não é você, não sou eu, não somos nós.

Às vezes, o passeio ajuda.
Às vezes, não ajuda em nada.
E nos dois casos, está tudo bem.

Hoje eu olho pra essa foto e sinto duas coisas ao mesmo tempo:
🌿 vontade de voltar
💔 lembrança de que nem sempre a paz externa alcança a interna

Talvez a maturidade emocional esteja exatamente aí:
em aceitar que existem dias em que nem o lugar mais calmo do mundo dá conta da nossa dor —
e, mesmo assim, a gente continua caminhando.

Um passo de cada vez.
Mesmo triste.
Mesmo cansada.
Mesmo sem sentir nada.


📚 O que a ciência diz

Estudos em psicologia mostram que, em transtornos do humor, estímulos externos positivos (natureza, passeios, silêncio) nem sempre conseguem modular o estado emocional.

Isso acontece porque o sofrimento não está apenas na experiência, mas em alterações neurobiológicas que afetam prazer, motivação e regulação emocional.

Ou seja: não é falta de esforço.
É doença — e precisa ser respeitada.


Hoje, essa foto não é sobre um lugar bonito.
É sobre seguir andando, mesmo quando a beleza não alcança.

💬 Me conta:

Você já esteve em um lugar lindo, calmo, silencioso…
e ainda assim se sentiu vazio(a) ou triste?

Se fizer sentido, compartilha sua experiência aqui.
E se conhecer alguém que precisa entender que nem sempre o ambiente cura, compartilha esse texto.

Às vezes, só saber que não estamos sozinhos já muda o peso do caminho.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Eu ainda acredito em mim

Eu ainda acredito em mim

Já me disseram, de tantas formas diferentes, que eu não servia pra nada.
Que eu exagerava.
Que eu sentia demais.
Que o espaço que eu ocupava era grande demais para alguém como eu.

Houve dias em que essas palavras não ficaram só do lado de fora.
Elas entraram.
Grudaram na pele.
E fizeram morada dentro de mim.

Teve um tempo em que fui encurralada contra mim mesma.
Cansada demais para lutar.
Cansada demais até para chorar.
Quando perder as lágrimas pareceu mais fácil do que sustentar a dor.

Mas eu estou aqui.
De pé.
Alerta.
Mesmo com cicatrizes que ninguém vê.

Não sou resto.
Não sou sobra.
Não sou “zero à esquerda”, como tentaram me fazer acreditar.

Eu acredito em mim.
Mesmo quando a voz treme.
Mesmo quando a confiança falha.
Mesmo quando tudo dentro de mim parece em guerra.

Aprendi cedo que viver em constante batalha muda a gente.
As guerras emocionais não me destruíram — me deram asas.
Não asas bonitas.
Asas de metal.
Pesadas.
Forjadas na dor.

Hoje eu voo diferente.
Não porque não tenho medo,
mas porque me recuso a rastejar de novo.

Já não estou em liquidação emocional.
Já não me ofereço pela metade.
Já não aceito migalhas de respeito.

Somos todos diferentes.
E é exatamente isso que nos torna únicos.
Não preciso caber no molde de ninguém para existir.

Passei pelo pior.
Sobrevivi a versões minhas que quase não suportei.
E sigo acreditando — mesmo cansada — que o melhor ainda pode chegar.


🧠 Um olhar da ciência

A psicologia entende que pessoas que atravessam sofrimento emocional intenso desenvolvem mecanismos profundos de sobrevivência.

A autoestima, nesses casos, não nasce do elogio fácil, mas da reconstrução diária após a dor.

Acreditar em si não é arrogância.
É resistência.
É saúde emocional em construção.


💬 E você?

Em que momento da vida você quase deixou de acreditar em si?
E o que te trouxe de volta?

Às vezes, acreditar em si é o ato mais revolucionário que existe.

Se você estiver passando por um momento difícil, procure ajuda.
CVV – 188 (24h), procure um psiquiatra, um psicólogo.

Estável não é igual a bem

🌸 Estável não é igual a bem

Quando estou “muito bem”, tudo funciona. Tenho mais energia, mais produtividade, mais ideias, mais disposição social. Durmo menos e ainda assim acordo bem. Sou mais legal, consigo ouvir músicas, participar de pequenos eventos.

O corpo não dói. Ou dói muito pouco. A vida parece finalmente possível. Acho que é quando sinto alegria de verdade.

Hoje eu sei: esse “estar muito bem” não é só ausência de sofrimento. É uma felicidade que, infelizmente, não se sustenta. Eu digo ao psiquiatra que amo estar assim, mas comecei a entender a preocupação dele com esse “bem demais”. Não é porque seja ruim — é porque não se mantém. É bom, mas passa. Sempre passa. E a fase que vem depois costuma ser muito dolorida. Ele me explicou de forma direta: quanto mais alto o pico, mais profunda pode ser a queda. Por isso a medicação é ajustada para um meio-termo. Não para tirar a vida, mas para evitar que, quando a depressão vier — porque nos transtornos bipolares ela não é totalmente evitável — ela venha com força suficiente para destruir tudo.


Quando o “bem demais” começa a preocupar

Antes da queda, quase sempre há sinais. Mais energia do que o habitual. Menos necessidade de sono. Mais confiança. Mais resolutividade.Mais alegria de verdade.E medo da alegria, porque sei o que vem depois. Estou feliz por estar bem, mas já preocupada também, pois no decorrer desses anos, sei que não dura, nunca serei feliz de verdade eu acho.

Não vem irritação. Não vem desorganização. Vem eficiência. Vem a vontade de viver e o ânimo que falta a maior parte da vida.

E talvez por isso seja tão difícil perceber onde está o limite.

Quando estou bem demais, aprendi que preciso observar — não comemorar sem cuidado. É triste! Mas é isso, não posso ficar tão feliz por estar feliz... Não sei exatamente quanto tempo vai durar a alegria, as vezes mais, outras menos, mas a certeza é que passa.


Quando a queda começa

A descida não começa na mente. Começa no corpo. Geralmente tem sido assim depois que comecei a prestar mais atenção em mim.

Vem o cansaço. As dores. A indisposição. A perda de ânimo para coisas que antes davam prazer. Estou vivendo isso agora, o início de uma depressão, que não sei quanto profunda será, mas sei que está começando, mesmo medicada.

A mente, então, começa a correr para o futuro — sempre para cenários ruins. Medo de recaída. Medo de não dar conta. Medo de perceberem. Medo de ter que trocar medicação. Medo dos efeitos colaterais. Medo de dessa vez partir de verdade... Porque não faltam ideias e planos para isso.

A culpa aparece forte. Pensamentos duros. Autojulgamento. Revisões intermináveis da própria vida. Sinto um vazio! Me sinto um nada, um lixo, uma incapaz e questiono milhares de vezes, porque ainda estou aqui?

E junto disso, aquela frase silenciosa:

“Lá vem de novo. Eu não aguento mais!”


O que a ciência chama de estabilidade

Na psiquiatria, estabilidade não significa bem-estar pleno. Significa redução de extremos.

O tratamento busca evitar colapsos graves, hospitalizações, impulsividades e riscos maiores. Ele não promete ausência de dor.

Hoje, com diagnóstico, tenho mais consciência. Consigo identificar sinais. Evitar alguns gatilhos. Mas isso não significa controle total.O controle total não existe, nunca vai existir.

Significa conviver com ciclos — mesmo medicada.As recaídas serão para sempre, já entendi.


O luto silencioso

Existe um luto pouco falado: o luto por saber que a estabilidade passa.

Eu me esforço. Sou forte. Sustento muita coisa. Mas quando o corpo começa a esfriar, a depressão ocupa espaço.

O estresse não fica só na mente. Já virou prurido intenso, erupções na pele, dificuldade para respirar, necessidade de medicação. O corpo responde quando o limite é ultrapassado.

Não é falta de vontade. Não é fraqueza. É doença atravessando a vida.


Você já percebeu esse “bem demais” antes da queda?

Se sentir vontade, escreva nos comentários como isso acontece com você. Este espaço também é feito de escuta.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Quando o corpo dói antes da tristeza


A depressão avisa no corpo antes de se revelar na mente.

Antes da tristeza profunda aparecer, meu corpo avisa. Não com palavras, mas com dor.

É uma dor muscular difusa, cervical, nos dedos. Às vezes parece reumatismo, às vezes tendinite. Nenhum analgésico resolve.

Eu durmo bem, mas acordo cansada. Sem ânimo. Sem vontade. Até atividades simples — como uma caminhada — passam a exigir um esforço que parece desproporcional.

A semana passada eu estava bem. Atenta. Disposta. Depois, aos poucos, vieram o choro, as dores espalhadas, a perda de interesse pelas coisas que eu gostava. Eu reconheço esse caminho. Já vivi isso outras vezes.

Meu corpo entra em depressão antes da minha mente aceitar.


O que a ciência explica sobre isso

Na bipolaridade, especialmente nas fases depressivas, o sofrimento não é apenas emocional. A literatura científica descreve fenômenos como fadiga central, lentificação psicomotora e aumento da sensibilidade à dor.

Mesmo sem alterações em exames de imagem, o sistema nervoso central pode amplificar sinais dolorosos. Isso não significa que a dor seja imaginária. Ela é neurobiológica.

Alterações nos neurotransmissores, no eixo do estresse e nos mecanismos de modulação da dor fazem com que o corpo sofra junto — e, muitas vezes, antes — do humor piorar de forma evidente.

  • a dor não melhora com analgésicos comuns
  • o cansaço não passa com descanso
  • os exames permanecem normais
  • a limitação física é real

Medicação e limites do tratamento

O bupropiona foi o medicamento que mais contribuiu para minha funcionalidade e energia. O lítio entrou como estabilizador, mesmo sem aliviar diretamente os sintomas físicos.

Estar medicada não significa estar imune à recaída. Significa, muitas vezes, reduzir riscos — não eliminar o sofrimento.


O que aprendi observando isso em mim

Aprendi a respeitar os sinais do corpo. Quando a dor aparece sem causa aparente, não interpreto mais como fraqueza.

Ainda estou refinando como lidar com isso. Ainda dói. Ainda limita. Mas hoje sei que não é preguiça, invenção ou falta de vontade. Me sinto triste porque as pessoas não entendem, apesar de não esperar que entendam, pois só entende quem sente ou já sentiu o mesmo.

Quando a dor vem, junto vêm a tristeza, a ansiedade, o medo e a vontade de sumir. Não de morrer — de pausar a existência por algumas horas, por dias... desaparecer...

Escrever isso não é reclamar. É nomear o que acontece de verdade.


  • Você não está exagerando
  • Seu corpo também sente a doença
  • Estar em tratamento não te impede de sofrer

Você já percebeu seu corpo dando sinais antes da mente entender o que está acontecendo? Como foi?

Se sentir vontade, escreva nos comentários como isso aparece em você. Este espaço também é feito de escuta.

Bipolaridade e oscilação de humor: quando o dia amanhece nublado aqui dentro

Hoje está nublado aqui dentro. Hoje o dia amanheceu nublado. Não só lá fora. Aqui dentro também. Acordei sem vontade de sair. Se...